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Not quite sun, not quite the moon



Terça-feira, 01.04.14

O tiro pela culatra

Último dia antes de Abril.
 [Fotografia de TR]

 

A espingarda estava no sótão. Israel subiu as escadas de três em três degraus, pernalta e lesto, e foi buscá-la. Apareceu primeiro o cano, empurrando a porta de latão como um anjo segura a seta, e a seguir o rosto do avô, só uma redonda e enrugada bola de carne vermelha, os olhos raiados a raiarem a cara e o corpo inteiro, a gente já vai ver quem é que está grávida, e voltou a pisar o mármore, agora pah, pah, pah, devagar, e era como no Dallas, sem cavalo e sem chapéu, mamã.
A mãe, terrificada, agarrada ao marido, ao seu casaco de bombazina, tão enjoada com aquele odor retardado a tabaco, não se decidia a vomitar ou a desmaiar. O pai era grande, mas encolheu-se e deu corda aos sapatinhos 46 quando Albertina gritou: para casa da Gracinha, Jesus!
Foram pela rampa-esfola-joelhos e entraram na velha pensão,
onde então morava a prima Graça. A grávida nos braços de Humberto, já muito achacada, a avó em prantos, e o diabo encarnado em assalto às portadas de madeira, pum, pum, pum, vou-te matar.
Não sei bem quem queria ele matar, se a grávida, se o filho, se a mulher, mas ficaram cá todos para depois me contar. Foi a 1 de Abril de 1982, quando a minha mãe desceu ao quintal para me anunciar. O avô, tomado pelo tinto de Alpiarça e num clássico ataque de fúria, sabe lá Deus o que lhe ia na cachola, resolveu que era hora de atirar. Salvou-nos a Gracinha, que nos acolheu, à mãe, à avó e ao pai, no quartinho de baixo da pensão.
E eu lá berrei, sete meses passados, nascida e avisada, quando ainda era uma esperança, de que a verdade não salvou ninguém.

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por T.


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por Tânia Raposo


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