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Not quite sun, not quite the moon



Quarta-feira, 29.10.14

O estranho e absurdo caso dos sacos de plástico

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Massa pevide – vários pacotes; sabonetes Palmolive – dois; meia dúzia de ovos e um ramo de salsa; um molho de nabiças e três couves; uma nota verde dobrada em quatro. Refrigerantes gaseificados, de laranja e ananás. Sacos de plástico fechados com nó duplo. E uma continuação da avó.
À lista, só hoje – véspera de muitos anos de vida que não lhe posso cantar – pude acrescentar o único bem não perecível com o qual Israel sempre contou, ainda que nunca tenhamos conversado mais do que vinte minutos debaixo da velha ameixoeira – eu tinha pressa de chegar a um sítio que não fosse ali. Ela estava morta, e nós, Israel e eu, resumíamos então o nosso comércio à recolha quinzenal daqueles sacos. Começara aquela nossa idade, que substituía a do simples e vil metal, logo depois de ele ganhar um encarnado doentio na face, emagrecer de carnes e mais com o luto, uma bandeira caída, preta, com aquela pinta vermelha no topo da haste – o avô. Era estranho aquilo, tão estranho quão mais estranho era ter transaccionado pela primeira vez quatro beijos e um quarto de hora sentada à mesa da cozinha sem estranhar em nada aquela operação.
Agora parece-me tudo absurdo: absurdo quando aconteceu, absurdo juntar a avó àqueles sacos, absurdo o avô e os seus sacos, os meus sacos, os nossos sacos. E, no entanto, o absurdo maior, ela estava morta, sobrevivemos-lhe – ao absurdo e a ela. E então porque não posso eu acreditar no absurdo da continuação, na avó a continuar no avô durante aqueles anos, naquele comércio lúgubre que ambos alimentámos, sem jamais entendermos porquê?
Os sacos de plástico cumpriram a sua função.

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por T.


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por Tânia Raposo


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