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Not quite sun, not quite the moon



Terça-feira, 16.06.15

De onde vêm os véus

c.JPG[Fotografia de TR]

 

A minha prima vai casar. O refrão é curto, e curto, tão pequeno era o dedito que ela erguia apontado a nós, enquanto trauteava a canção da Pastora. O refrão é curto, e está a toda a hora a exercer a sua condição, não me deixa esquecer e por um minuto descer outra vez a rampa do portão dos nossos avós e gritar rininha, anda cá. Anda cá, rininha, não fujas do quintal outra vez, olha a avó que te chama, um pé no pedal da Singer, outro do lado de cá, não fujas. Os bichos que vivem no canteiro da salsa e da hortelã, para quem construímos o mais belo reino de talos e terrões, esses que só a gente vê que digo aos bicharocos, rininha? Nunca mais posso descobrir tesouros no congelador do frigorífico do avô, aquele que trabalha sem luz e tem sacos do pão com moedas; eu não consigo encontrar tesouros sem ti, eu cá não sei acreditar. Olha ali, não estou a mentir: já não vejo a ameixoeira e da casa só me aparece a lareira e pouco mais. Que graça tem esconder-me agora, se não tenho onde me esconder?

Anda cá, rininha, não fujas do quintal outra vez, olha a avó que te chama. Está aqui, empoleirada na banqueta que comprámos em Pernes, para poder chegar-te aos cabelos e prender o véu nos caracóis loiros que hão-de escorrer-te pelo alvo pescoço outra vez.

 

Para Carina Ferreira, minha adorada prima, que casa dia 27 deste mês.

 

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por T.


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por Tânia Raposo


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