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Not quite sun, not quite the moon



Quarta-feira, 12.02.14

Cebolinha

Estou sentada na escada de três degraus do castelo. O vestido cor-de-rosa velho, de peito elástico e saia balão, tem uma das alças descaída, pondo-me o ombro esquerdo sem tira nenhuma, nu. É a minha vestimenta de grávida, assim o baptizei, depois de ter conseguido meter um chorão, um boneco grande, gordo e careca, entre o tecido e a minha barriga. Olho para a chorona, sem sinal de menino, e digo Cebolinha, ficas aí, e puxo a saia para baixo. E tiram-me o retrato.
São os anos do pânico perante as mãos engelhadas no banho de imersão, estou velhinha, mãe, e da asfixia debaixo das mantas, quando o pato pintado na parede do quarto parecia crescer muito e saltar da tinta para a cama para me assombrar. Quem tem medo do Donald?
São os anos das cheias na mata onde morreu o menino do barco a remos, e eu ainda não sei nadar. As árvores ganham uma aparência medonha, com os ramos despidos, o cocuruto a emergir no meio de um lodo escuro, e eu sempre à espera. O menino não me vem buscar?
Pintei as bochechas da Cebolinha com uma caneta de feltro, dei-lhe sardas, desenhei longas pestanas azuis, com outro marcador Pirata, e Cebolona, mulher grande, ficou deitada debaixo do retrato da avó Joaquina, à espera que chegasse a noite, que eu ligasse aquele candeeiro de velas falsas e a sombra dos óculos de massa escura da finada avançassem sobre ela, estóica Cebolona, valente Cebolona, que ali ficou sem se levantar.
No dia seguinte, levantei-me com a minha culpa, tranquila, e fui comer sopas de pão com cevada Pensal.

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por T.


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por Tânia Raposo


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