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Not quite sun, not quite the moon



Sexta-feira, 05.07.13

O homem vestido de branco

Tenho saudades dos dias em que cantava esta música, com gana e voz esganiçada, assim: je vais de morrer. Era no tempo em que me esforçava imenso por perceber como é que o locutor do Bola Branca podia anunciar na telefonia do meu avô Israel que o Benfica ia jogar em casa, pois o Benfica tinha de ter uma casa muito grande, com uma sala enorme na qual coubessem balizas e centenas de pessoas sentadas em cadeiras ao longo do espaço. Foi nessa altura, ou pouco depois, que conheci o padre Abílio, numa visita matinal que fez à escola primária.
O padre Abílio sempre foi velho, pelo menos para mim. Como a minha tia Violeta, que roubava todas as bolas de futebol dos miúdos lá do canto, competindo com Israel, seu irmão, no índice de malvadez e tirania que tinha cada show de expulsão por infracção de regras muito suas, muito deles, naquele pequeno rectângulo que era o bairro familiar onde cresci. O padre Abílio era velho, mas não velhaco, falava com vagar, como se o tempo fosse uma coisa eterna, e quando o vi lembrou-me a canção do homem vestido de branco — finalmente eu também podia agradecer àquele que encantava a Europa e que o Dino Meira louvava sem parar.
Foi depois daquela visita do padre Abílio que eu levei para casa, preenchida com letras desenhadas com esforço pela minha mão, a ficha de inscrição na catequese. O que veio depois não tem história, por lá andei, fugindo muitas vezes à missa dominical, correndo para casa de Albertina Francisca, minha avó e cúmplice de pecado, para me esconder do ralhete e dos olhos da minha mãe. Já adolescente, baptizou-me ele, e acho que foi o último dia de fé, corria um Dezembro chuvoso, o último dos dias em família, antes da supercola  que era a minha avó partir e começarmos todos a partir da vida uns dos outros.
O padre Abílio morreu, e com ele o que restava dessa gaiata também.

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por T.


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por Tânia Raposo


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