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Suffer the little children
A coisa começou torta, como aqueles incisivos que vêm, em trote gengival, ameaçando furar os beiços das criancinhas. A declaração tem um princípio, falo com propriedade: entrei e o corredor, com portas coloridas (púrpura-fada, amarelo-pirlimpimpim, azul-fastiento), tinha ao fundo uma fonte exotérica que jorrava um esguicho murcho, uma aguinha mole que gritava recalcamento. Sentei-me, rabo enterrado numa poltrona negra com cheiro a estofador forreta, napa a anunciar dali até ao hall que tinha o traseiro nela a dar a dar.
Entro? Obrigada, Doutora, tal e tal. Ah, sim, as manchas (a cada Rorschach dela, eu via desfilar cremes Yves Rocher, depois os bombons). Não, Doutora, estou aqui, sim. Eu? Em nada, estava a ouvi-la. Não há divã? Não, não me importo. Pois, é dos filmes. Vamos passar?
A mudança da cadeirinha para o cadeirão, deve haver aqui um significado oculto, Deus meu, tudo tem de ter significados ocultos, chiça, mas o Vamos Passar? era o mesmo da minha cabeleireira, quando me quer tirar da calha, ela que cortava os cabelos ao Rónaldo, descobri no outro dia, enquanto me metia a tesoura nas farripas do ensaio franjático que experimentou em mim — isto também deve ser parábola para símbolo escondido, Jesus.
Saí e ela agarrou-se-me, beijou-me as faces, afagou-me o bracinho direito, e disse só o meu nome cristão. Espero que isto lhe faça sentido, atirou ela. Far-me-á sentido, e vou já de encontro, pelo sim, pelo não.