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Not quite sun, not quite the moon



Segunda-feira, 25.11.13

O singular guardado da avó


O avô era um recolector. Lá no terreno, três barracões albergavam esculturas feiosas, numa composição sortida e inusitada: caixas de fruta; estruturas em ferro e outros materiais frios; pilhas de jornais, revistas e folhetos de supermercado; cadeiras partidas; latas de tinta vazias; serrotes e demais ferramentas de bricolage e carpintaria; peles por curtir; e mais um rol interminável de ninharias. Amontoadas em equilíbrio periclitante, todas as coisas tinham sentido. Para ele, e ninguém mais.
Nesse ninguém, incluía-se — como para mim era bom de ver — a avó. Ele acartava, ela limpava geral. Era assim, sempre assim: ela ia ao mercado, ele trazia umas rodas ferrugentas para embelezar uma das esculturas; ele ia à caça, ela tirava o dia para fazer uma razia num dos barracões.  Depois, invariavelmente, discussões de trovoada rija, com a avó a dizer-me baixinho, no sótão, enquanto ele clamava a indignação no centro marmoreado do quintal: «ele quer Cavaco, mas eu não lho dou».
Andava intrigadíssima com aquilo, lembro-me tão bem. Mas por que razão queria o avô que a minha avó lhe desse Cavaco? E como é que a minha avó havia de satisfazer o esposo? O pior de tudo, a ecoar na minha cabeça de ervilha, nos idos de 80: «eu não lho dou». O pior do pior: se ela o tem, ele só pode estar ali fechado, no baú dos trapos.
Portanto, a minha teoria lógica passou a ser: o avô diz que vota sempre no PC; o avô diz mal do Cavaco; a avó tem o Cavaco e não gosta do PC; a avó não quer nem pode dar o Cavaco ao avô, ou ele matará o senhor dos cartazes ali mesmo, no sótão, agarrando na espingarda que está ao lado do baú. E ainda, em rodapé: quando a avó traz o prato do jantar para o sótão… bem, agora sei porquê.

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por T.


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por Tânia Raposo


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