Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Not quite sun, not quite the moon



Quarta-feira, 15.05.13

Preia-mar

[Fotografia de TR]

Quando tinha oito anos, o mar da Praia do Norte era assim. Na areia, entre as formas de caranguejos, os baldes amarelos, uma pá e um ancinho (com o qual eu desenhava ondinhas, arando os grãos molhados), estava eu, de fato de banho meio deslaçado, herdado de uma prima que me dispensara o elastano cheio de peixes encarnados, listados de azul.
Nesse tempo, como tantas vezes nos evangelhos segundo um apóstolo à escolha do freguês, o povo não tinha descoberto quão cool era o surf e os likes não cresciam como cogumelos anunciando a boa-nova da onda gigante e do messias estrangeiro nela montado. Nesse tempo, dizia eu, havia um sossego medonho naquele areal onde o meu pai me agarrava pelos sovacos para me fazer pedalar na espuma, pés tica-tica de quando em vez no ar, mesmo à beirinha, entre dois dos muitos remoinhos daquele mar.
Para lá chegar, andava a pé um bom bocado, entre azedas e campainhas, ele ao meu lado de saco à tiracolo e Ray-Ban toujours. No fim, escolhíamos sempre o melhor declive para descer, aterrando muitas vezes de rabo dorido e empoeirado numa duna do rés-do-chão.
Tenho saudades daquele mar. E do pai dos meus oito anos, que nunca mais vou encontrar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por T.


Comentar:

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.



por Tânia Raposo


Pesquisar

Pesquisar no Blog