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Not quite sun, not quite the moon



Sexta-feira, 02.08.13

A vida, antes

Aos três anos de mundo, a tríade intocável foi profanada e tudo mudou. Dessa mudança recordo apenas o depois, que não é um verdadeiro depois, e isso é, talvez, a coisa mais estranha de toda a minha vida.
O tempo daquele casal, os meus pais, existe só na minha memória inventada, sugada aos outros, criada das lembranças alheias, das fotografias do álbum verde. O tempo da sagrada família, três pessoas debaixo de um tecto só, a primeira árvore de Natal, o início das palavras, «não», «dá», eu feita profeta de fralda anunciando a vinda da salvação, ou, que culpa tenho eu?, se for apenas mito, assim reza a escritura no livro de assentos, 52 cm, muito cabelo, «nunca quis chucha».
A minha vida começa sempre depois, quando vejo a entrada da creche, um edifício cor-de-rosa velho, eu num dois cavalos azul-bebé, a pintura de dois meninos a beijarem-se debaixo de um guarda-chuva, pés numa poça escura, demasiado perfeita, regra e compasso. «É para aqui que tu vens agora.»
Foi para isto que nasci. Nunca um grito, um recado traiçoeiro na mochila de fim-de-semana, uma zanga. Um amor maior, intacto. Um pai e uma mãe separados, uma filha a crescer, para sempre, nos dias de uma vida, nesse reduto, feliz.

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por T.


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por Tânia Raposo


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