Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Not quite sun, not quite the moon



Segunda-feira, 29.07.13

Luz

La Chambre, Balthus, 1954

 

Por detrás da portinhola de rede, Piedade esperava-me, de avental e braços estendidos, lenço com nó à Beatriz Costa. Cobarde e pouco hábil na expressão corporal do sentimento, parei no alpendre durante uns segundos, paradinha de penalti, com um enorme medo de falhar. Depois, agarrei-lhe a cara pálida com as mãos todas, fiz uma escalada até ao cocuruto com as pontas dos dedos e senti picar. Os cabelitos, hirsutos, debaixo da seda, acenderam a imagem da barba fraca do meu avô, antes de ficar retesado e magro como um cancelo na cama de um lar.
O cancro comeu a minha avó, caíram-lhe bocados de carne, roeu-lhe a resiliência até então da vida toda, e eu não quero entrar no quarto escuro outra vez. O cancro comeu o meu avô, que definhou, cheio de uma saudade e de um afecto que esteve cinquenta anos dormente, em silêncio, esperando a morte da mulher de Israel para, então, viver.
Tudo tarda, e nós somos ridículos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por T.


Comentar:

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.



por Tânia Raposo


Pesquisar

Pesquisar no Blog