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Not quite sun, not quite the moon



Quinta-feira, 13.03.14

Primavera

Já rebentou?
Assim começava a Primavera nos antigos Casais Galegos, com a pergunta que todos os anos, na véspera de mais um aniversário, eu lhe fazia. Já rebentou, avó?
O Olho da Mari’Paula iluminava-se em Março; a nascente rebentava antes mas era preciso esperar pelo Sol. Saíamos as duas, com uma merenda embrulhada numa rodilha, em direcção ao depósito da aldeia. Aí, descíamos as escadinhas até à estrada dos curtumes e metíamos por um caminho de terra e pó ladeado por azedas e papoilas. Por essa altura, ela ia a meio da história do casamento da minha tia, uma das minhas preferidas, cujo ponto alto era imaginar a cena em que Noémia abria a prenda do padrinho rico, com enorme expectativa, e descobria uma torradeira.
Lembro-me dos ramos de flores que compúnhamos e de tudo ser luz à chegada às grandes pedras, passada a ponte de madeira. Ao contrário da mata minderica, que ensombrara os meus primeiros anos de vida, aquela nascente, viva ou ainda grávida de caudal, era alegria pura.
Naquele último passeio, antes de eu crescer tudo o que não devia, sentámo-nos à beira d’água, em silêncio, escutando o curso do pequeno rio galgar os seixos, cair nas redondas lagoas que se formavam depois do primeiro declive. O mundo corria, lá longe, ali ao lado, trazido até nós pelo vento, com a sirene da uma da tarde a tocar. Ela despertou, apressada, e apiedou-se de nós, havemos de cá voltar.

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por T.



por Tânia Raposo


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