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Not quite sun, not quite the moon



Segunda-feira, 24.02.14

Nem o pai morre nem a gente almoça

Paula Rego, Anjo, 1998

Agora já não se matam galinhas.
A praça à quarta-feira, dois quilómetros e meio a pé com uma caixa de cartão fechada com guita, uns pintos que faziam um barulho semelhante ao da ocarina, quando nela entrava o ar soprado pelos lábios juntos e chocava com a água a chocalhar no barro — tudo morreu.
Para matar galinhas, criavam-se pintainhos, picavam-se talos de couve, faziam-se papas de farelos.
Para matar galinhas, havia uma casa com gente sempre a partir e a chegar, e então matavam-se galinhas — para o farnel das viagens, para o almoço de domingo, para o jantar de São João.
Matavam-se galinhas nas manhãs frescas de sábado, de bata e facalhão, um sol claro a entrar pela rede do galinheiro, as aves espantadas, penas no ar, um esguicho de sangue na parede suja.
Era tão bom matar galinhas.

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por T.



por Tânia Raposo


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