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Not quite sun, not quite the moon



Quinta-feira, 30.01.14

Nada na mão

 

Fui feita por duas pessoas que comiam Nestum à colherada em frente ao bib-bip de que o pai tanto gostava. A mãe tinha um medo paralisador (há-os diferentes) das enguias que, cortadas ao meio, num prato de loiça com malmequeres pirosos, jaziam em grande movida no frigorífico. Na porta estava colada uma enfiada da primeira colecção de cromos que os adolescentes começaram a juntar depois de 1 de Abril do ano em que nasci, horas de um dia ingrato para ela, véspera de mais um aniversário e saudosa data da mentira que haveria de parir com um quilo quinhentos e tal gramas, no único Inverno em que nevou naquele lugar.
No livro de assentos não consta que tenha feito má cara ao Toino Zé quando passou com o carro de mão pelo canto dos avós, estando eu sentada na rampa do portão, batendo palmas como se tudo nos meus treze meses de vida tivesse sido possível para chegar só àquele momento. Há uma descrição da primeira árvore de Natal, de como as luzinhas me fascinavam dos olhos à boca, o perigo de morte numa dentada só de gengivas, mole mas concretizada com afinco; ainda uma nota fora das linhas, pela mão da mãe, que encontrou espaço no pé de página para registar a ausência de um presépio. Registar uma ausência é dar e tirar, sem possibilidade de lembrança que não esta.
Quando o Toino Zé dobrou a esquina, com a boina ruça já incorporada no escasso e gorduroso cabelo, eu tinha crescido e ele continuava igual — sozinho. Diminuído, coitado, como dizia a tia Florinda, emprestando uma pena vazia, de remediada sã, à qualificação. Veio ter comigo, e eu deixei-me estar. Foi dele o meu maior terror, depois uma piedade grande e fingida, até poder negar-lhe uma moeda e secar finalmente o meu músculo cardíaco com o louco do carrinho de mão.

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por T.



por Tânia Raposo


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