Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Not quite sun, not quite the moon



Segunda-feira, 27.01.14

Enxertar

Já era Junho e o colchão de esponja, forrado a flanela, com um padrão de ramos intrincados e castanho-escuros e peixes miúdos tão a despropósito, talvez uma memória fabricada do tempo em que o tio-avô era barqueiro no Alviela e trazia enguias sempre-feias, sempre-vivas do rio, dizia, o colchão de esponja estava debaixo da ameixoeira. Era uma árvore enxertada, como são todas as árvores de família, e elas, as famílias, também. O avô tinha feito nascer do tronco-pai um outro, mais fino, de onde brotavam as ameixas amarelas, mais raras que as vermelhas, tardias, mas sempre maiores. Era um desses frutos que eu trincava naquela manhã, deitada de bruços no colchão, enquanto a avó depenava um frango gordíssimo sentada no banco de madeira, daqueles que pareciam feitos para casas de bonecas do meu tamanho.
Lembrei-me disto, talvez pela primeira vez, no dia em que escrevi sobre as flores. Na altura não encontrei lógica nesse encadeamento de recordações, mas agora que rememoro aquela manhã, com o cheiro das ameixas muito forte e doce, tão doce que as abas do nariz se levantam enquanto escrevo, não vem a lógica encontrar-me lá, mas depois do almoço dessa tarde de Junho, dirigindo-me à loja de flores da Lurdes Praieira. Não era florista, a Lurdes, mas vendia flores e arranjava-se naquilo como podia. Era mãe da outra Tânia, a que a avó, muitos anos antes, tinha trazido pela mão durante um minuto, pelo caminho de seixos que ia do jardim-de-infância à rua principal, findo o qual tinha dito à magricela de segundo nome Sofia, mas tu não és a minha Tânia.
O bolso do meu vestido evasée estava cheio com as moedas que tinha conseguido tirar através da ranhura do porco de barro, pondo-o de cabeça para baixo e batendo-lhe ferozmente com a mão direita no rabito gordo. Tinha prometido não violar o mealheiro, e aquela era a segunda vez que incumpria, sendo agora a culpa muito menor quando comparada com o primeiro furto, que levara a cabo com o canivete suíço de Israel, método proveitoso para o saque da nota de 1000 escudos, aplicada na compra de vários Calipos e Pernas de Pau.
Entrei na loja, despejei a minha fortuna em cima do balcão de inox e disse: quero o ramo mais bonito para a minha avó. A Lurdes Praieira, com o seu jeito despachado e aquela pronúncia cantada da Nazaré, contou as moedas em voz alta; eu ouvia o tilintar e o meu coração.
Abri o portão de latão e tenho a certeza de que lá da cozinha, pela janela forrada a rede, ela me viu. Não porque ela tenha parado de cortar o feijão-verde em finíssimos bocados, como só ela cortou, mas porque a gente sabe coisas quando está inundada de esperanças, sem uma pinga de racionalização. Era um bouquet de rosas vermelhas, e a avó disse: são as primeiras flores que me dão.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por T.



por Tânia Raposo


Pesquisar

Pesquisar no Blog