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Not quite sun, not quite the moon



Sexta-feira, 04.04.14

Cruzeiro

Aquelas amoras silvestres, tão poucas, os espinhos espetados na sebe logo ao início da subida, os meus dedos dos pés encavalitados rompendo a lona das sapatilhas brancas, o cheiro dos pinhões esmagados pela pedra que partia a pinha e deixava a riqueza daquele dia desfeita ao aparecer, tudo aquilo era a primeira e única manhã do ano em que íamos ao Cruzeiro.
Naquele tempo, era longe. A rua calcetada, só ela, era larga e funda, ia da barraca do Zé Moé, que ainda não se tinha imolado com as mantas de papa em chamas, e onde agora estão dois bancos e um canteiro com sardinheiras de que ninguém quer saber, até à íngreme estrada alcatroada, que continua a desembocar na capela dos acabados de morrer, a do Santo António, a das velhas piadeiras e do calor dos funerais estivais, na terra em que todos resolviam partir nas minhas férias de Verão.
Era longe, o Blacky corria, gordo de todas sopas de pão que eu lhe despejava na tigela, mais orelhudo que nunca naquele fresco da soltura, talvez se lembrasse de ter estado ali há trezentos e tal dias, cumprindo as vésperas de mais quatro estações de ferrolho e corrente no pátio da nossa casa. Seixos, alcatrão, brita, e finalmente o chão forrado a terra barrenta. Eu ia atrás dele, prevendo a tintura de iodo que haveria de me escorrer pelas pernas e fazer menos vivas as minhas joelheiras, e foi o que de mais parecido às cenas dos livros de aventuras de jovenzinhos eu identifiquei, eu e o cão, serra acima, correndo, num contentamento esquecido, a arfar.
Era bom que chegar fosse tão longe ainda.

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por T.



por Tânia Raposo


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