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Not quite sun, not quite the moon



Quarta-feira, 16.04.14

A Pintassilgo

Pintassilgo soava mal, mas ficou.
No quarto 548, Rosalindo continuava em dúvida quanto à melhor posição para a fixação do reposteiro e isso causava-lhe grande ansiedade. Não admitia que Graça pudesse regressar e vê-lo naquilo, com a sanefa e os pequeníssimos clips espalhados na alcatifa, o folho murcho e amarfanhado aos pés, derrotado. Por Deus, tinha de concentrar-se e tomar uma decisão, ponderada, racional, com base nos cálculos que tinha apontado no bloco pautado. Sim, era absolutamente fundamental que o reposteiro não quebrasse a luz em demasia, que o folho caísse em largo arco 20 centímetros abaixo do topo, criando um efeito de auréola à luz das primeiras horas da tarde, entre a cama e as duas poltronas de saia. Estando o 548 destinado a ser plateau de nubentes, o caso era seríssimo, e Rosalindo não podia falhar.
Berbequins eram como robôs de cozinha, ou pelo menos foi assim que venceu o medo e subiu o escadote, com um orgulho tolo e solitário, pensando no Exterminador. De costas, se lá estivéssemos, deitados no chão, víamos a coroa de cabelo do marido de Graça como farta cabeleira, com traseira longa e ripada, ignorando por completo, assim, a calvície em avançado estado que lhe tomava já o espaço entre a testa e o cocuruto. Vemos, então, Rosalindo fixando o reposteiro, compondo depois as várias camadas de tecido, na verdade três, que vestiam a janela, tudo para chegarmos a este momento, agora, em que pendura o afamado folho, constante no projecto inicial daquela suite, por ele concebido, com o qual conseguira, fazendo um brilharete na agência bancária, arrematar o crédito e convencer o gerente de que aquele era um empreendimento fulcral para o lugar de Viço, entre uma nacional e a entrada para a auto-estrada. Para isso, em muito contribuíra a esposa, também presente no acto, assistindo à comunicação do futuro dono da Pintassilgo com breves ah e puxando, na recta final, do lenço bordado com as iniciais do casal que lhe dera sua mãe no dia da boda. As mesmas letras que ele, em gestos graciosos, desenhou no ar, não sem antes, evidentemente, ter treinado longas horas para que conseguisse fazê-lo em espelho para o moço ver e perceber.
Quando Graça regressou ao piso 5, o elevador não lhe deu música e a chave-mestra encravou. Possante, mandou-se contra a porta, que destrancou. Foi encontrar Rosalindo, na King-size vinda de New Jersey, envergando lingerie rosa, com os berloques dos cortinados presos nos pulsos e os olhos cerrados. Desmaiou, que é diferente de desfalecer, e era assim mesmo que tinha de proceder. Quando voltou a si, Rosalindo estava de pé, eram 15h00 e auréola era perfeita. Beijaram-se muito nas faces, sentaram-se nas poltronas e Graça ajeitou-lhe o papillon. A Pintassilgo estava pronta para a inauguração.

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por T.



por Tânia Raposo


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