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Not quite sun, not quite the moon


Terça-feira, 07.01.14

Vida

 

A passagem dos anos no canteiro do quintal dos meus avós é a vida. Há dias, abri os álbuns de fotografias e vi que tudo se resumia àquilo, e aquilo era a terra.
Num dos primeiros retratos, ao colo da minha prima, há por detrás de nós duas enormes filas de tulipas amarelas e encarnadas. Tudo é viço. Quando já éramos três e apareceu o primeiro rapaz, fotografaram-nos ao lado das roseiras, mas já se vê a invasão das couves. No dia da absolvição, guarda-chuva aberto e debaixo dele só eu e o casal, seguro a concha do baptismo, e há só um verde triste e escuro atrás. Lembro-me de ela repetir, sem pinga de esperança, ele quer matar-me as flores. Assim foi, naturalmente. Depois de estar morta e bem enterrada, vi-o no quintal a tentar fazer tudo começar outra vez. Nasceram umas rosas raquíticas, que não chegaram à jarra da campa, todos os dias cheia de flores que ele comprava e comprava e comprava. Morreu também, e depois vingou um ramo de plástico.

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por T.

Domingo, 05.01.14

As avarias de Israel

Israel nunca precisou de sedativos para dormir. Para se embalar, o avô sentava-se na poltrona de plástico branco, de comando na mão, e fazia a dança do indicador e do polegar. Ao lado, no sofá coberto com a manta minderica, eu e Rininha não tínhamos autorização para dar qualquer palpite sobre a programação. Restava-nos, pois, esperar que o avô adormecesse, e nesse momento tentaríamos uma manobra delicada, a quatro mãos: surripiar-lhe o rectângulo dos botões, ela levantado os dedos do homem que ressonava, eu fazendo deslizar o comando para o chão. O perigo maior eram os reclames, que interrompiam o estável volume da televisão, aumentando os decibéis: Israel abria pelo menos um dos olhos, embora nunca chegássemos a saber se tinha realmente acordado ou não.
Numa das nossas tentativas, já íamos de joelhos pelo tapete, triunfantes, quando o ecrã da velhinha Sony foi invadido pelo trailer de um filme ofegante, ais e uis de cortar a respiração. Israel despertou, arregalou os olhos. A televisão está a ficar muito quente. Vai avariar. E, hipnotizado, foi desligar o botão.

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por T.

Domingo, 05.01.14

A grande ilusão

Quando parava no ar, em pontas, víamos uma flecha apontada ao nosso coração. Naquele segundo, éramos sempre crianças. Felizes, pelo que veio ao mundo para nos fazer Bem. Crentes, no amor incondicional.
Depois, na explosão, esquecíamo-nos de nós e regressávamos definitivamente à infância, abraços, lágrimas, um País inteiro só alegria.
Subir ao céu é privilégio dos vivos. Ah, Eusébio, a gente vive agarrada à ilusão.

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por T.

Sexta-feira, 03.01.14

O que é o Natal

No comboio, na manhã de Natal, 2013.
 [Fotografia de TR]

Era um carocha azul celeste, tudo à minha volta parecia filtrado por tule, ou é assim que me lembro, que é o mesmo, se só o parto natural do que foi volta sempre a nós — existe. O carro parou, eu saí. Uma parede cor-de-rosa com dois meninos pintados, dando um beijo debaixo de um guarda-chuva. É para aqui que vens, disse-me a senhora de óculos grandes e amarelos.
Na entrada daquela creche está o meu mito, a minha primeira memória. A separação dos meus pais, de antes desse dia, está por acontecer.

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por T.

Quinta-feira, 02.01.14

«Beijos para forever, Fred.»

Frederico era lindo e tinha uma enorme vantagem: era repetente. Moreno de cabelo escuro, esfiapado, sardas laranja e olhos enormes, Fred tinha 13 anos de idade e comandava o bando dos rufias da escola. Traficavam senhas de almoço e tinham esconderijos secretos, nomeadamente o vão de escadas do bloco amarelo, onde levavam as escolhidas para jogar ao bate-pé.
Quando me vi sozinha com Frederico, senti a primeira tontura da minha vida. Estávamos de pé, encostados à parede, e eu lembro-me da tontura até ao momento em que deixei de ver as sardas e os olhos porque o líder encostara a boca à minha. Estiquei o pescoço, dirigi toda a força do meu pequeno corpo para aquele bocado de carne entreaberto, e percebi o que a Sofia me dissera sobre os ensaios da peça de teatro, quando tinha sido bafejada pela sorte e se vira obrigada, pelo dever da arte, a simular um beijo com Gustavo, o segundo mais bonito do ano de 91.
Nesse final de dia, corri até à loja dos trezentos e comprei uma moldura, penhorando toda a semanada. Foi enquadrado naquele rectângulo 15 por 20 que a minha mãe conheceu Frederico, quando à noite entrou no quarto da filha com dez anos de idade e deu de caras com o retrato em cima do napperon da mesinha de cabeceira. É o meu namorado.

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Sexta-feira, 27.12.13

FDP

Albertina crescia às cachinas do irmão Toino mais do que quando atava rolhas ao calcanhar com guita grossa e brincava às senhoras da cidade. Em casa de uma das senhoras da cidade, porém, iria aprender uma lição para toda a vida.
Era sábado e chovia muito. As terras empapadas não deixariam que as meninas dos laços grandes e a minha avó, sem laço e pequenina, brincassem fora de portas. Por isso, a senhora da cidade untou pão com azeite e pô-lo num prato com desenhos de pássaros dourados para que as suas crias e a outra comessem. O pai das raparigas, então, achou que deveriam aproveitar bem aquela tarde e pôs um grande círculo preto na grafonola. As meninas deviam limpar os beiços e preparar-se, compondo as saias dos vestidos em cima do veludo do sofá, para ouvir o senhor presidente. Albertina, que não sabia quem era aquele senhor presidente e nunca tinha visto um disco, estava em grande excitação.
Os primeiros sapatos da minha avó baloiçavam, alinhando a coreografia pela experiência das amigas, e o homem da casa pousou a agulha no círculo preto. Num volume altíssimo, na sala de tecto alto que fazia eco, o senhor presidente começou a discursar. «Meus Filhos da Pfffff». A mão voltou a pôr a agulha no primeiro risco e, mais uma vez, o senhor presidente clamou «Meus Filhos da Pffff». E — era assim que ela me contava a história o pai das meninas disse, com uma expressão seríssima: «Por favor, meninas, saiam da sala que o Dr. Salazar quer desabafar.»
Albertina, rindo muito, dizia sempre, no final da história: não há maldade que tenha mais poder do que a gargalhada de uma criança.  

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Sexta-feira, 20.12.13

O estranho caso do perfume grená

 

No quarto da avó, nas prateleiras que guarneciam o lado direito do guarda-fatos de pinho envernizado, estava o tesouro interdito: o perfume do frasco grená, coroado com tampa em forma de rosa, todo ele vidro fosco, com letras rococó a ouro. Rininha e eu, então as caçulas da família, estávamos proibidas de subir o banquinho para tentar lá chegar. Quanto muito — e só em dias especiais (quiséramos nós que fosse sempre noite de São João e os balões ateassem no ar)  a avó pegava nele, no tesouro, e borrifava-nos, lóbulos e pulsos, e nós rodávamos as saias de pregas que todos os anos eram diferentes, costuradas na velhinha Singer, todos os anos iguais.
Uma tarde, seis horas e a canja a fumegar, Rininha e eu fomos chamadas à cozinha, mas não para jantar. A avó tinha a cara muito rosada, os olhos entristecidos. Falou-nos da decepção, palavra esquisita. Como podíamos nós ter traído assim a sua confiança? Tinha sido generosa, naqueles raros mas benévolos gestos de aspergimento.  Como podíamos ter esvaziado assim o precioso frasco grená?
Em pranto, Rininha e eu, amargando a falsa acusação, chorávamos para dentro dos pratos côncavos do jantar. A avó, calada, preparava mais um frango para corar. E o avô entrou, vindo de um funeral, homem lindão, dalim, dalão. Dentes de uma brancura cintilante, como a que se via nos reclames dos fixadores de placa, onde invariavelmente uma estrela brilhava num canino do modelo. E com ele também entrou na cozinha um perfume muito familiar.

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Quarta-feira, 18.12.13

No meio é que está a virtude

 

O Correio da Manhã é o melhor jornal de Portugal. Porque foi o CM que fez de mim a menina de seis anos que soube muito antes do moço pimpão e saltitão, que fez pop-up do Prós e Contras para o Governo, o que era o verdadeiro empreendedorismo.
O meu pai herdou do seu a qualidade de empilhar. Empilhava loiça suja, empilhava roupa no chão e, claro, empilhava também as revistas que vinham bem aconchegadas no meio do jornal. As páginas centrais dessas bíblias do País eram preenchidas por fotografias de literatura erótica para papás, uma versão muito antiga do que agora degenerou em tons e sombras do que não lembra ao diabo; e, entendamo-nos, só o que lembra ao diabo é efectivamente bom.
Ao contrário da avó, que deitava tudo no contentor, eu fazia uma análise crítica do potencial da tralha empilhada. No caso das revistas, esmorecidos outros interesses, pareceu-me evidente o modelo de negócio a aplicar. Rasguei cuidadosamente as páginas, tendo especial cuidado em não aumentar os furos dos agrafos que marcavam as coxas das raparigas, e cataloguei o material. Havia as menos despidas e de lisura pouco fogosa; e as de cueca a rasgar os glúteos e com maminhas balão. Porque a justiça sempre me guiou, marquei as primeiras a 5 escudos e as segundas a 10.
A escola primária nunca tinha conhecido tanto fervor no intervalo das 10h30. Entre um pacote de leite escolar e um papo-seco com manteiga, os homens de amanhã acorreram às traseiras da cantina e fizeram de mim a menina mais rica da aldeia. Três foram fiados, sobraram dois.
À noite, quando a mãe abriu a mochila cor-de-rosa, o meu sonho acabou. Palmadas e uma ordem para devolução do material, que viria a ser apreendido pela censura maternal. No dia seguinte, os meus companheiros foram intimados a pôr fim àquele Carnaval. Mas, por usufruto, exigi ficar com 25 % do valor total.

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Segunda-feira, 09.12.13

Un malheur mieux supporté

 [Fotografia de TR]

Le bonheur n'est peut-être qu'un malheur mieux supporté.
Marguerite Yourcenar

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Domingo, 08.12.13

O resto é paisagem


E era por ser domingo que o ti’Toino estava ali, de rabo alçado, olhando para a obra de arte encostada ao contentor do lixo. As duas mãos de esqueleto, esquálido do quico às botas 46; as duas mãos agarrando uma paisagem sombria, com patos e nenúfares num lago cinza-azulado.
Ti’Toino não tinha caçado nada; ao contrário do seu cunhado, que naquele instante se aproximava do perímetro deite o lixo no lixo; o seu cunhado que, garboso e vaidoso dos seus dois pombos e do coelho de olhos vidrados, vinha também ele armado, verde-tropa mas sem quico — um cabelo ondulado ao natural, prata mantida a sabão azul e branco, ostenta-se sempre.
'Vô’Rael chegou-se ao ti’Toino, deu dois toques na madeira da moldura com o cano serrado e declarou: «esse quadro é meu, Matias.» O outro, sacana e já recto de corpo todo feito ao avô, obstou: «era a tua mulher veio pô-lo aqui, agora é meu.» Ti’Toino agarrou no quadro mais feio do mundo, que tinha estado anos perdidos na sala dos meus avós, e tentou marchar em direcção ao seu portão. O ‘vô’Rael agarrou-o pela fralda. Engalfinharam-se, espingardas ao ombro, e acabaram os dois no alcatrão, os pombos esmagados, a minha avó sem canja para o almoço, a ti’Florinda sem nada para o jantar.
Toino tornou-se proprietário da pintura horribilis e pendurou-a no hall como quem põe um santo num altar. Horas depois, Israel provocaria uma reviravolta, entrando falinhas mansas na casa da irmã para o resgatar. «É meu, Florinda, e toma lá um coelho para estufar.»
Palavra da salvação. A glória tarda mas não falha, senhor.

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Quarta-feira, 04.12.13

Marruas, 10 points

O bisa Marruas era um homem alegre, beberrão e gentil. E era com espalhafatosa alegria que atirava loiça de cozinha, bibelôs e, às vezes, panelas quando chegava da taberna bem entornado, a cantar.
Na passadeira rococó do longo corredor da casa velha, eu mantinha-me quieta, a apreciar o espectáculo. Ele entrava pela porta do fundo, que dava para o anexo das madeiras e dos cestos, e eu, porque o Blackie dava sinal lá fora, arrastando a corrente e ladrando, estava a postos na outra ponta quando Marruas aparecia no palco, triunfal.
Primeiro atacava a bancada da cozinha, na primeira à direita. Normalmente, procedia ao lançamento de um prato e começava a trinar. Mais um passo largo, em balanço livre e descoordenado, e pegava num dos pierrots das prateleiras minúsculas. A prima Mena, que os pintava e lhes punha uma gola — para mim, um babete chique —, mandava novas remessas todas as semanas.
Cantava tão bem, o avô. Esticava os braços grandes, desenhando bolas e mais bolas no ar bafiento e escuro da casa. Cantarolava canções portuguesas. E fazia tudo para não me acertar com o fogo-de-artifício que arremessava. Eu ria-me muito, juntava as palmas das mãos por cima da testa e dos caracóis e sabia como tudo ia acabar: abria-lhe a porta do quarto, ele tombava e o Jesus da Cruz ficava a olhá-lo lá da parede, aguardando a noite, que traria um novo festival.

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Segunda-feira, 02.12.13

Manhãs

 [Fotografia de TR]

Nunca os veremos outra vez.

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Segunda-feira, 02.12.13

A Restauração da Atenção

Fui à papelaria da Dona Manela comprar uma esferográfica.
A Dona Manela tem um neto que anda de triciclo e alaga os dossiers; foi ele que me abriu a porta, com uma felicidade de dentinhos virgens, maravilhado com o dlim dlão da campainha.
A Dona Manela tem um cão gorducho, que passa as tardes — com o vagar que só os cães têm  ao sol, no degrau da entrada; um bicho que é um senhor de olhos remelosos, maior sinónimo de pachorra que conheci.
Como o senhor Augusto, da ourivesaria vinte metros adiante, onde fui buscar um carrossel em prata para o meu recém-português, a Dona Manela não estava ensimesmada. A Dona Manela fez negócio comigo  e estava feliz.
Tagarelámos. No remate, uma atençãozinha. É disso que precisamos. E temos de regressar àquele  a este  País.

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Sexta-feira, 29.11.13

Da Mãe

Cheira a azeite bom a ferver. O alguidar verde-escuro é o mesmo. Num banco baixo, de tampo lacado e a escamar, escrevi: enrolar numa rodilha e bater contra a pedra para ficar fofo. Depois, na margem, um coração pequeno, com rebites, e um ponto de exclamação. Em cima, o título, em letras cheias: Pastéis de Bacalhau da Avó Albertina. Foi num domingo em que apanhava salsa no canteiro, com os pés descalços na terra, o avô a amolar facas e a avó lá dentro, a rolar os pastéis na frigideira alta, com um comprido garfo de madeira clara.
No domingo passado descobri um papel mais pequeno que aquele, rasgado de um dos blocos de notas que o meu pai transformava em: poemas simples e eloquentes sobre amor; receitas de pólvora caseira em tempo de revolução; listas com números de telefone de moçoilas mindericas.
Uma folha pautada, Coscorões da Mãe. E, de repente, estávamos todos ligados na mesma massa, pela mesma mulher, sentados em redor da mesa branca — o Berto, a Nema e eu, outra vez.

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Quinta-feira, 28.11.13

Piano em dias frios

 [Fotografia de TR]

A vida das pessoas que não gostam de música deve ser tão triste.

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Segunda-feira, 25.11.13

O singular guardado da avó


O avô era um recolector. Lá no terreno, três barracões albergavam esculturas feiosas, numa composição sortida e inusitada: caixas de fruta; estruturas em ferro e outros materiais frios; pilhas de jornais, revistas e folhetos de supermercado; cadeiras partidas; latas de tinta vazias; serrotes e demais ferramentas de bricolage e carpintaria; peles por curtir; e mais um rol interminável de ninharias. Amontoadas em equilíbrio periclitante, todas as coisas tinham sentido. Para ele, e ninguém mais.
Nesse ninguém, incluía-se — como para mim era bom de ver — a avó. Ele acartava, ela limpava geral. Era assim, sempre assim: ela ia ao mercado, ele trazia umas rodas ferrugentas para embelezar uma das esculturas; ele ia à caça, ela tirava o dia para fazer uma razia num dos barracões.  Depois, invariavelmente, discussões de trovoada rija, com a avó a dizer-me baixinho, no sótão, enquanto ele clamava a indignação no centro marmoreado do quintal: «ele quer Cavaco, mas eu não lho dou».
Andava intrigadíssima com aquilo, lembro-me tão bem. Mas por que razão queria o avô que a minha avó lhe desse Cavaco? E como é que a minha avó havia de satisfazer o esposo? O pior de tudo, a ecoar na minha cabeça de ervilha, nos idos de 80: «eu não lho dou». O pior do pior: se ela o tem, ele só pode estar ali fechado, no baú dos trapos.
Portanto, a minha teoria lógica passou a ser: o avô diz que vota sempre no PC; o avô diz mal do Cavaco; a avó tem o Cavaco e não gosta do PC; a avó não quer nem pode dar o Cavaco ao avô, ou ele matará o senhor dos cartazes ali mesmo, no sótão, agarrando na espingarda que está ao lado do baú. E ainda, em rodapé: quando a avó traz o prato do jantar para o sótão… bem, agora sei porquê.

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por T.

Domingo, 24.11.13

A última menina de Balthus

Balthus e Cybèle, 1994
[© Mediamuse]

I told him I had given birth to two daughters who could have been models for his paintings. He invited them to the Grand Chalet the following summer, and one of them did in fact become his last model. That day, I’d entered another dimension and, in his gracious company, journeyed into Balthus’s wondrous dreamland. It was a voyage that lasted until the day of his funeral, which I attended together with his family and friends on 24 February 2001.

Denyse Bertoni, aqui.

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Domingo, 24.11.13

Censier, Croupier

Eram 6h30 e saí para a rua. Levava botas de cano alto, castanhas e bem lustradas, mas parecia que tinha patins. Tinha sido naquela rua que aprendera a rolar nuns, quatro rodas e um travão dianteiro em cada par, uns anos antes. Mas agora, o passeio de alcatrão grená era uma pista de gelo cristalino e caminhar cento e vinte metros seria um desafio; levei-me a bom porto, que é como quem diz, à paragem do bus agarrada ao gradeamento dos jardins, sempre com medo, mas sem nunca paralisar.
Quando cheguei à Rue Censier, subindo as escadas da estação dos anos 30, Paris era uma cidade previsivelmente ensolarada, com pequenas ilhas de verglas a desaparecer. Como sempre, era impossível perder-me, e restava-me uma artimanha muito estúpida: ignorar. Foi o que fiz.
Meia hora depois, estava quase em frente ao Panteão, mas fui obrigada a parar a marcha. Com o dramatismo e o exagero cénico que aquela manhã exigia, fiquei a olhar para a vitrina de um café, através da qual via: uma mulher e duas crianças a comer. Era quase Dezembro, claro. Tão festiva, aquela visão. A distância, sobretudo quando nos mete um vidro pelo meio, transforma todo e qualquer quadro familiar num colorido e vibrante rótulo de Coca-Cola, edição especial de Natal.
Não sei quanto tempo depois, em automático, caminhei. Recuperei-me no momento em que subi de novo os degraus para sair do escuro do metro. Olhei para o relógio e percebi que Madame Croupier, loira e redonda, capitã das oito, condutora da Découverte de La Rome Antique, ia perguntar onde tinha estado outra vez.

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Sexta-feira, 22.11.13

Arraiel

Sentei-me no chão de tacos e puxei do cesto. Entre uma série de correspondência muito variada (envelopes de hospital, bilhetes da comissão de festas da terra, até uma folha A5 avisando da recepção de uma espingarda para conserto), encontrei uma carta endereçada a Arraiel, filho da Maria do Céu, rua perto dos correios. Sem remetente.
Nas quatro páginas manuscritas, a jovem, sem nunca se identificar — mas sabendo que Arraiel conhecia bem quem lhe escrevia —, pedia encarecidamente que o meu avô, então ainda um rapaz novo mas já palpitante nubente, intercedesse junto de um tal Manuel para que de uma vez por todas ele fosse fiel ao coração. Não queria a correspondente que Arraiel forçasse o outro a nada, muito menos que o desencaminhasse, que o obrigasse a sair de casa, a deixar para trás a esposa e os filhos. Não, a jovem pedia apenas que Manuel fosse fiel ao coração, devendo depois o meu avô transmitir a uma amiga comum o que tinha sido candidamente ditado. Informava, para tal, a que horas pegava e despegava da fábrica, dando mais pormenores sobre a hora de almoço e as extraordinárias, que fazia ordinariamente na esperança de criar tesouro suficiente para fugir com Manuel e montar um lar. O pai dela — avisava, sublinhando — matá-la-ia se descobrisse; escrevesse o meu avô para a amiga, de modo a que o sobrescrito chegasse entre segunda e quarta-feira, para que a emissária pudesse encontrá-la, sem conflito de agendas laborais, num cruzamento entre a fábrica e a drogaria.
Agradece a Deus e a um santo, cujo nome não me recordo, e muito, ainda mais, a Arraiel, o mais santo e louvável de todos, mesmo no final da enumeração.
Que tenho eu com isto? Nada, estão todos mortos. Resta saber se o pai a matou ou não.

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Quinta-feira, 21.11.13

E se

 [Fotografia de TR]

Detalhe da fotografia do post anterior. Pequenas coisas, coisas maravilhosas.

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por T.


por Tânia Raposo


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