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Not quite sun, not quite the moon



Quarta-feira, 24.07.13

Fresco de Fat Mountain

 

[Fotografia de TR]


Coqueluche das décadas que fecharam o século passado, o pouco proeminente Monte Gordo é hoje terreno do qual, a todo e qualquer instante da expedição veranista, brotam flatulentos episódios balneares do nosso absoluto, delicioso deslumbramento provinciano.

Ao longo de uma espécie de marginal, metida entre parques de estacionamento, zonas ligeiramente ajardinadas e barracas que albergam túnicas de rede fluorescente  especialmente indicadas para chamamento de atenção a maridos-todo-o-ano-alheados-do-pneu-da-excelsa-senhora — um terrífico ajuntamento classificado de «divertimentos», espécie protegida desde os fulgurosos tempos da minha infância de má memória, deita para o ar um conjunto heterogéneo de sons musicais, da batida tonyana ao rebumbum de discoteca demodée, parecendo querer competir directamente com as colunas anexadas ao snack-bar ibérico, forrado a bandeirinhas nacionais, onde há o ambicioso projecto gastronómico intitulado «sardinhas todos dias». Do outro lado, o cheiro a fritos, que voa da frigideira da família Napier ou de outra roulotte de churrinhos especiais, atravessa o alcatrão e cola-se à estampa britânica, oxigenada a vários volumes, super-mini-saia florida descaída, fio dental a vincar-lhe a cintura, criando uma segunda vaga de bochechas do rabo inglês. Sim, reconheço-a, a cueca é o elemento que me permite confirmá-lo: era ainda ontem a colega da duna da frente, a despachada mulher que trocava o biquíni pelo conjunto íntimo, rendilhado, debaixo do guarda-sol, não sem antes ter usado o rolo que fez com a toalha turca para se certificar da ausência de grãos de areia no mais recôndito interior das suas encarniçadas coxas.
Mais adiante, dobrando a esquina junto ao decrépito casino, entramos na rua das montras, assim nomeada por uma espécie de instinto de fuga prà frente. Aqui, uma miscelânea de chinesices com finas camadas de mundo árabe ocidentalizado cobre a superfície quase por inteiro, tendo para isso colonizado várias casas de artesanato e recuerdos outrora soberanas. Há espanholitos de bóia com fartura, espalhados em esplanadas de bom plástico amarelo, máquina do tempo sincronizada para o início de 1990. Passo por um enorme letreiro promissor, «depilation now very cheap», e encontro uma boutique singular, quase nua de recheio, onde a promoção são os fatos de banho a rondar os 179 euros.
Regresso à praia. Nunca a minha big idea do depósito de crianças fez tanto sentido. Entre a Ângela Maria de orelha tenríssima e já furada e o sexteto dos Ferreira, de tenda armada, big mamma barrando cacetes com Nutella para empurrar as sandes de salsicha, a geleira que o mái novo do Manel Alves resolveu estacionar em cima do meu metro quadrado de areia e o vendedor de conquilhas que ostenta «fuzileiros para sempre» no antebraço, nem o bebé mais amoroso do Verão 2013 consegue reconduzir-me ao meu centro bondoso, maternal. À beira-mar, dois contribuintes para o futuro da banda gástrica em território nacional trincam bolas, jactantes. Ele preocupa-se em limpar-lhe o beição com a ponta do anelar, e ela, comovida, faz sair o seu músculo poderoso da caverna bocal, pondo-o a girar em torno do dedo do seu amado.
O sol põe-se, e Filipe Samuel, qual anjinho de lago, produz um repuxo de oiro, que morre a meus pés. A progenitora gargalha e, a seu favor, jura que já lhe disse que antes tem de escavar; depois, claro, tapar. Há uma mama de fora na banhista das sete da tarde. E uma traineira «Virjem do Monte» a chegar.

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por T.



por Tânia Raposo


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