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Not quite sun, not quite the moon



Quarta-feira, 17.07.13

Palavra

«— E a tua vitalidade farta-me como um prato demasiado abundante para o meu apetite civilizado; como um desses festins bárbaros, em que corria sangue ao lado das fogueiras em que se assavam bois inteiros. Que queres de mim? Qualquer outra mulher teria mais senso comum e mais verdade.
Qualquer outra mulher não tem nada que ver comigo. Qualquer outra criatura, excepto todas juntas, não tem nada que ver comigo. Devia ofender-me com o que tu dizes, e isso não acontece; devia sentir ciúme quando passas de mão dada com as tuas amigas e as trazes aqui e as mandas embora com um olhar de recompensa e já distraído até pela nódoa de bâton na tua gravata. Mas não tenho ciúme. Não percebo bem, digo-te. O orgulho é a muleta da castidade e há castidade em todo o sentimento, toda a efusão de alma, toda a concessão do nosso eu, assim como pode haver impudor. Tenho um tal orgulho em te querer desprezar! Isto é talvez toda a minha força… Meu Deus, que coisas aprendemos a dizer!

De repente, com o seu espírito iluminado e caloroso dos vinte anos, ela compreendeu essa trágica fraude da criação da palavra, essa perturbadora e frágil forma de ligação entre os homens e que acrescenta para sempre o seu desencontro. Compreendeu que não há diálogos reais, que, quando alguém interfere com a vida e a alma de outrem, com os seus prazeres e pecados, toda a veemência resulta caricata, e a palavra sempre atraiçoa, envilece, abjura; a palavra, tanto mais cultivada e erudita, confunde as intenções mais formais e rigorosas do coração do homem. Um diálogo perfeito e momentâneo resulta uma comunicação de loucos, com esgares sem propósito, saltos mortais e esperas atrás das portas. A palavra corrompe sem culpa, tudo o que explica adultera, a sua harmonia é uma conspiração, o seu brilho fere sem iluminar.»

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por T.



por Tânia Raposo


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