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Not quite sun, not quite the moon



Segunda-feira, 15.07.13

Querido marido

As coisas estavam num baú de cartão bolorento, pejado de ferrugem, no sótão onde eu tinha erguido tendas índias de lençóis, casas portuguesas de mantas mindericas e outras obras-primas da arquitectura infantil de T., a mestre-de-obras de paus de vassouras, arames & estendais, sociedade nada anónima e matriarcal, limitada a primas e vizinhas, cachopos não entram cá.
O chão que me pertencera a vida toda ia para outras mãos, e eu tinha a inglória tarefa de recuperar o que nunca tinha sido meu  mais um capítulo na irónica história mundial da herança.
O ferrolho cedeu com duas ou três pancadas e veio de dentro um cheiro acre a mofo, curtumes, corda e envelopes selados. Comecei a retirar os montinhos de coisas enlaçadas para o chão de cimento, tentando não desfazer a elaborada lógica daquilo tudo, que não fazia sentido, Israel nunca fora homem de guardados, e aquilo era obra dele.
«Querido marido», e eu engoli seis sílabas, enrijeci, era como nas radiografias, a placa gelada encostada às vértebras, não respire, a fotografia a demorar demais. O postal tinha sido muito vincado, dobrado talvez para caber no bolso das calças plissadas do destinatário, embora na minha versão instantânea tivesse vivido anos a fio no bolso da camisa, do lado esquerdo, apontado ao coração. «Querido marido», e desdobrava-se em parcas linhas descrevendo a temperatura da água, o quartito calhado em sorte por meia dúzia de tostões, a menina que dizia pai e o rapazola que desandava areia fora, sem medo do mar.
«Querido marido», e os dois mortos, agora duas sombras evanescentes naqueles cinquenta metros coroados de telha-vã, e os dois vivos como nunca os tinha visto em mais de duas décadas de episódios terrenos, agora o homem que Albertina claramente amara, talvez só até «com saudades, da tua mulher», aquela que Israel conservara religiosamente, como quem olha para uma iluminura de mártir.
Subsistiu jazendo o amor dos meus avós — para viver finalmente em mim.

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por T.



por Tânia Raposo


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