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Not quite sun, not quite the moon



Terça-feira, 09.07.13

A escolha de David

Estou cansada deste melaço noticioso onde andamos enfiados. Estou cansada dos ameaços apocalípticos, de suster a respiração e de levar com águas mornas cara abaixo, que isto não aquece nem arrefece, só os tipos da meteorologia parecem acertar, está tudo do avesso, sinal dos tempos. Enquanto ficamos assim, cacilheiros poptizados e encalhados em cenas pseudo-tudo, eu, pela minha parte, dispenso cada vez menos o vinho, a música e uma resma de papel cozida à linha, do que agora, entre wi-i-bugigangas, nos parece coisa da haute antiquité – um livro.
Entretanto, fui arranjar as unhas, actividade prosaica que não dispenso, e desta vez foi o filho da minha riqueza de coiffeure que escolheu o esmalte semanal. David, com tom de novo testamenteiro, apontou para o frasquinho e disse que o coral não me iria mal. Assim foi, segui o parecer do estudante de medicina que rumou a terras nórdicas, conselheiro estético nas férias grandes, que correu em auxílio de sua mãe, assoberbada no salão com fêmeas várias, uma hospedeira fazendo um alisamento asiático, uma moça que se antecipou ao descair das peles e se foi ao peeling, e outras mais. E David quer saber se gostei do trabalho da rapariguinha que me embelezou as mãos. E David quer que volte sempre, olhando-me com as enormes pupilas envoltas em avelã e chocolate, e eu já o imagino de estetoscópio e bata, educado, igualmente polido, a tratar-me do coração.
Lá vim para a rua amanhar-me com a realidade, mas por trinta minutos a escolha de David salvou-me do bicho papão.

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por T.



por Tânia Raposo


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