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Not quite sun, not quite the moon



Terça-feira, 25.06.13

A bem da Nação

Ah, os transportes públicos, esse meio essencial na minha vida para chegar ao fim próxima do desmaio por inalação de substâncias altamente tóxicas.
Ainda hoje, pela fresca (manner of speaking pouco apropriada, mas), eu embarcava em mais uma viagem no moderno autocarro da Carris, piso rebaixado e ar condicionado. Experimentei sentar-me nos bancos da frente, o ar quente a entrar renovado a cada tirilim-tim-tim. A senhora sentada ao meu lado tresandava a uma imitação barata de Chanel, próxima do n.º 5 mas em muito pior. A náusea levou-me então aos lugares mais altos, lá atrás, onde um ser de manga à cava e sovaco feito área verde portuguesa de Agosto em chamas, ti-no-ni, exalava um perfume agridoce, com notas ácidas e toques de picante, insistindo em bambolear-se roçando a cintura no meu braço direito. Tento o banco corrido do fundo — não há ninguém a habitar os assentos, pode ser que. Próxima paragem: adolescentes da nova geração, imberbes e chique-favelados (esse estilo urbano que invadiu o bairro social ou o bairro social que invadiu o estilo das avenidas novas, ainda não sei) empunham um telemóvel potente, a julgar pelo volume que me chega do lugar contíguo, curte só esta, iô. Estou quase a desistir, a ambientar-me ao Axe retardado como fragrância social, quando vejo que ao lado da LOL, vulgo little old ladie, tricotadora por sinal, vagou um espacinho. Peço licença ao mano, que me olha de cima a baixo, esta não devia andar aqui, e dirijo-me rapidamente ao fim do corredor. Nisto, sou abalroada por um senhor de sacola, quarentas-cinquentas, que resolve dar-me um chega para lá com a dita, não sem antes apresentar o seu manifesto, fui operado à anca e tenho problemas nos pés. Tem, é um facto, e chama-se a isso chulé.
Eu gostava que, a bem da cultura (não há cabeça que consiga parir uma ideia minúscula com um despertar deste calibre), parassem de brincar às metrópoles civilizadas distribuindo livrinhos no bus e assim, e pusessem a rapaziada a oferecer o Feno de Portugal ao maralhal. Duche matinal é o novo desígnio nacional.

Adenda: O seu nome se chama Estevão Gabriel e fala sabiamente a partir do país irmão. Valeu.

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por T.



por Tânia Raposo


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