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Not quite sun, not quite the moon



Terça-feira, 04.06.13

A Morte de E.

O meu frigorífico pifou, finou-se, pum. As manobras do curso doméstico de primeiros socorros de nada me valeram, e a ele, ferrugem de cima a baixo, pingando estalactites, muito menos. Mas isso foi depois.
Entrei na cozinha e havia uma poça em forma de Zorro. De cócoras, sem acreditar que ia perder a guerra, perscrutei a zona circundante e, nada havendo que indicasse a origem do mal, enfiei a mão debaixo do rectângulo outrora branco. Nada para lá dos cinco ou seis centímetros de líquido. Seco, sequinho.
Cena 1, take 2: polegar retido nas baixas profundezas frigoríficas. Vem o braço esquerdo em auxílio e lá se avança, com toda a confiança e o cotão de longa duração, para a batalha. Corta-se a corrente ao bicho. Abre-se a porta.
Nota de campo n.º 1: a zona de refrigeração assimilou as propriedades da que a precede, se virmos a coisa de cima para baixo, i.e., da zona de congelação, e apresenta agora um bloco de gelo titânico, com meio metro de largura e pelo menos um palmo de altura, sem fundo à vista. Não será isto a abalar a minha estóica confiança no desenrascanço.
Saco de uma espátula de madeira, muno-me de um martelo sueco e esculpo pós-modernamente a besta glaciar. Isto durou até ficar com o joelho esquerdo enfiado na gaveta dos legumes, resultando num esmagamento de um tomate-em-rama-esquecido-em-rama-esborrachado, e vi também o vidro em mil pedaços cortado.
Com a fúria dos que vêem a derrota mas se atiram à morte certa, acendi várias velas e pu-las em regime nossa senhora de Fátima rogai por nós na segunda prateleira. O monstro começou a ceder, ping-ping, aquilo lembrava-me os meus passeios nas grutas de Santo António, divaguei e voltei a mim quando me cheirou a borracha queimada.
Soprei uma golfada de ar, qual aniversariante, e apliquei o golpe mais baixo: fui-me a ele com as unhas, puxei, e vim aterrar nos mosaicos, entre alguidares, turcos ensopados e rolos de papel, com o menino nos braços.
Electrolux morreu esta noite, a desoras. O funeral realiza-se amanhã, ao final da tarde. A proprietária não lhe concedeu, em vida, a manutenção que merecia. Deixa mulher desamparada. Eterna saudade.

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por T.


2 comentários

De linda david a 05.06.2013 às 00:18

Lá, no assento etéreo onde subiu encontrará um aspirador, uma varinha mágica, uma torradeira. Um dia, cansadas das vida duras e das investidas de mãos adolescentes, desistiram de aquecer, tostar e liquefazer as toneladas de hidratos de carbono e vitaminas, que saciavam - durante alguns minutos - as hormonas devoradoras dos dois projectos que por se passeiam. Enrubesceram e, num último estertor, largaram um uivo rouco e disseram adeus. Enterrei-as, sem pompa nem circunstância, na vala comum: eletrão . Não os chorámos, porque aos quinze anos uma torradeira morta é um torradeira posta. Outra varinha mágica, esse maravilhoso instrumento, que transforma bocados intragáveis de talos de couve em tigelas de liquido verde e retemperador, ainda ficou uns dia na prateleira do supermercado, mas como, mãe que é mãe, não deixa filhos sem sopa, durante muito tempo, veio em caixa nova e com garantia substituir a falecida - rosa e robusta amiga de longa data. O aspirador teve uma morte mais tranquila, nem rubor, nem gritos roucos, apenas um suspiro cansado e sentido. Deixou de respirar. Era uma sexta-feira quente. As suas exéquias foram celebradas com cantos e danças punk-rock por um adorável grupo de ácaros. No dia seguinte, já ninguém se lembrava dele. Foi substituído por um modelo ultraleve e silencioso. Acredito que descansam em paz e, a partir de amanhã, em melhor companhia. Não deixam herança e as despesas inerentes ficaram por conta da casa.
Pelas magia realizada, ao longo de dezasseis anos, a amiga rosa e robusta, deixou um grande vazio na gaveta onde sempre viveu com alegria e de boa saúde
A caixa que lhe pertencia agoniza a um canto, num armário da garagem.
A vida continua.

De T. a 05.06.2013 às 10:50

Que bela e sentida réplica :) Obrigada, Linda.

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por Tânia Raposo


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