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Not quite sun, not quite the moon



Quarta-feira, 22.05.13

O tal postal


O meu pai deu-me um postal grande com ursos e balões que repetia ad æternum, assim estivesse aberto, os pindéricos parabéns. Andei com aquilo atrelado a mim nas semanas que se seguiram ao meu sexto aniversário, mas foi só adopção temporária. Enfiei-o na gaveta da escrivaninha e devo tê-lo substituído pela piscina insuflável da Barbie que a minha avó me mandou de Caracas, pensando que era o que eu queria, mais os maninhos da loira que nunca Kenificou, e isso sim, era o que eu queria ter, uma boneca linda e prenha, o que eu pensei sobre aquela impossibilidade, meu Deus.
Enfiei-o na escrivaninha e fui brincar às crianças viajadas para Paris. A minha mãe, miserável sem a sua riquezinha, resolveu que a matança das saudades se fazia pernoitando nos meus aposentos, agarrada à minha almofada impregnada de Johnson no llores más.
E começou o terror. Toda a santa noite, no silêncio sepulcral da casa, soava em gravissimo ou larghissimo a marcha aniversarial. Penou um mês, a alma. Se era assombração criada por morte em dia de nascimento, se era um prenúncio de desgraça. Vasculhou tudo, rezas, nosso senhor.
Até que a pilha se gastou.

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por T.



por Tânia Raposo


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