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Not quite sun, not quite the moon



Sexta-feira, 10.01.14

A filha do coveiro

Tinha a cabeça aberta, via-se bocados de algodão. Saíam do escalpe misturados com o cabelo curto, embebido num óleo qualquer, e aquela matéria pastosa, feita de dourado e escuro, lembrava-me a mioleira de porco a queimar no fogão da minha avó. Junto à parte mais carnuda da orelha esquerda, o início de uma carreira de pontos, que seguia pescoço abaixo, até desaparecer no colarinho da camisa. Os óculos de lentes grossas, quando examinados de muito perto, eram um caleidoscópio. Minúsculas pingas de sangue, riscos, as pálpebras pareciam mexer-se, umas pestanas medonhas, as pálpebras mexiam-se, um sinal castanho na cana do nariz. As unhas estavam amarelas, notava-se muito, aqueles dedos grossos entrançados ao peito. Uma saia verde-escura, uns collants de mousse brancos, estética certa, estática, atroz.
Isto foi depois de vários tiros de espingarda na Casa do Povo, de ter tombado gorda e pesada na corticite ao lado do balcão. Gritaram muito, lá, mas com a cova aberta gritaram ainda mais, pensei que a tia tinha morrido também, fechou os olhos e caiu para cima do monte de terra, olhei para ela, tão limpinha e vestida de preto, olhei para a Maria Dolores dentro do caixão, afinal são isto os mortos, o tio era o coveiro, esperei que naquele dia pegasse na pá para enterrar a filha suja também.

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por T.



por Tânia Raposo


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