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Not quite sun, not quite the moon



Domingo, 19.05.13

Golo-e-fica

Ser do Benfica é uma condição genética, cardíaca e crónica. Nasce com a gente, e comigo também nasceu.
O meu tio Quim, leão dos sete costados, tentou que o botão verde ligasse durante os meus vários estágios Piaget. Sem sucesso. O meu tio Quim, sportinguista ferrenho, subornou várias vezes o meu irmão mais velho com um gelado-dos-cabeça (uma edição infeliz da Olá, anos 90, que tinha o rei só-da-selva como emblema). Sem sucesso. O meu tio Quim, Alvaláxio até à quinta casa, iludiu a sua filha mais nova, com uma paciência aristocrática, até aos sete anos da cachopa. Sem sucesso.
O meu tio-avô das águias, que eu só via de ano a ano, viveu sempre com os tostões contados para tudo, menos para engalanar a frente de casa com bandeiras, galhardetes e outros símbolos encarnados que faziam parar o trânsito e traziam gente das aldeias próximas (e não só) para contemplar aquela riqueza.
A minha colega de faculdade D., absolutamente alheada das lides futebolísticas, umas vezes espantava-se, outras alarmava-se, quando me ouvia falar das glórias do maior clube do mundo com mais entusiasmo, sabedoria e devoção do que eu alguma vez emprestei às nossas discussões literárias.
Briguei com o meu pai quando não me quis fazer sócia. Infiltrei-me no velhinho estádio para assistir a um treino à porta fechada no dia do meu 21.º aniversário. Colei-me a um volumoso senhor para conseguir sair com uma cadeira n.º1 do velhinho terceiro anel e galguei umas escadas a fugir à polícia, quando sabia que ali não voltaria mais. Vesti a camisola mil vezes. Assisti a jogos com os velhos dos cativos. Ensinei aos meus dois irmãos o hino, um a cantá-lo com 7, outro pequenino ao meu colo a ver os jogos, tentando repetir o nome dos jogadores.
Sou do Golo-e-fica, como disse ao meu tio Quim com dois e três e mais anos. Com orgulho, muito orgulho, mesmo se perder. Não se é do Benfica por querer, mas é-se até morrer.

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por T.



por Tânia Raposo


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