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Not quite sun, not quite the moon



Domingo, 05.01.14

As avarias de Israel

Israel nunca precisou de sedativos para dormir. Para se embalar, o avô sentava-se na poltrona de plástico branco, de comando na mão, e fazia a dança do indicador e do polegar. Ao lado, no sofá coberto com a manta minderica, eu e Rininha não tínhamos autorização para dar qualquer palpite sobre a programação. Restava-nos, pois, esperar que o avô adormecesse, e nesse momento tentaríamos uma manobra delicada, a quatro mãos: surripiar-lhe o rectângulo dos botões, ela levantado os dedos do homem que ressonava, eu fazendo deslizar o comando para o chão. O perigo maior eram os reclames, que interrompiam o estável volume da televisão, aumentando os decibéis: Israel abria pelo menos um dos olhos, embora nunca chegássemos a saber se tinha realmente acordado ou não.
Numa das nossas tentativas, já íamos de joelhos pelo tapete, triunfantes, quando o ecrã da velhinha Sony foi invadido pelo trailer de um filme ofegante, ais e uis de cortar a respiração. Israel despertou, arregalou os olhos. A televisão está a ficar muito quente. Vai avariar. E, hipnotizado, foi desligar o botão.

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por T.



por Tânia Raposo


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