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Not quite sun, not quite the moon



Quinta-feira, 02.01.14

«Beijos para forever, Fred.»

Frederico era lindo e tinha uma enorme vantagem: era repetente. Moreno de cabelo escuro, esfiapado, sardas laranja e olhos enormes, Fred tinha 13 anos de idade e comandava o bando dos rufias da escola. Traficavam senhas de almoço e tinham esconderijos secretos, nomeadamente o vão de escadas do bloco amarelo, onde levavam as escolhidas para jogar ao bate-pé.
Quando me vi sozinha com Frederico, senti a primeira tontura da minha vida. Estávamos de pé, encostados à parede, e eu lembro-me da tontura até ao momento em que deixei de ver as sardas e os olhos porque o líder encostara a boca à minha. Estiquei o pescoço, dirigi toda a força do meu pequeno corpo para aquele bocado de carne entreaberto, e percebi o que a Sofia me dissera sobre os ensaios da peça de teatro, quando tinha sido bafejada pela sorte e se vira obrigada, pelo dever da arte, a simular um beijo com Gustavo, o segundo mais bonito do ano de 91.
Nesse final de dia, corri até à loja dos trezentos e comprei uma moldura, penhorando toda a semanada. Foi enquadrado naquele rectângulo 15 por 20 que a minha mãe conheceu Frederico, quando à noite entrou no quarto da filha com dez anos de idade e deu de caras com o retrato em cima do napperon da mesinha de cabeceira. É o meu namorado.

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por T.



por Tânia Raposo


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