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Not quite sun, not quite the moon



Sexta-feira, 20.12.13

O estranho caso do perfume grená

 

No quarto da avó, nas prateleiras que guarneciam o lado direito do guarda-fatos de pinho envernizado, estava o tesouro interdito: o perfume do frasco grená, coroado com tampa em forma de rosa, todo ele vidro fosco, com letras rococó a ouro. Rininha e eu, então as caçulas da família, estávamos proibidas de subir o banquinho para tentar lá chegar. Quanto muito — e só em dias especiais (quiséramos nós que fosse sempre noite de São João e os balões ateassem no ar)  a avó pegava nele, no tesouro, e borrifava-nos, lóbulos e pulsos, e nós rodávamos as saias de pregas que todos os anos eram diferentes, costuradas na velhinha Singer, todos os anos iguais.
Uma tarde, seis horas e a canja a fumegar, Rininha e eu fomos chamadas à cozinha, mas não para jantar. A avó tinha a cara muito rosada, os olhos entristecidos. Falou-nos da decepção, palavra esquisita. Como podíamos nós ter traído assim a sua confiança? Tinha sido generosa, naqueles raros mas benévolos gestos de aspergimento.  Como podíamos ter esvaziado assim o precioso frasco grená?
Em pranto, Rininha e eu, amargando a falsa acusação, chorávamos para dentro dos pratos côncavos do jantar. A avó, calada, preparava mais um frango para corar. E o avô entrou, vindo de um funeral, homem lindão, dalim, dalão. Dentes de uma brancura cintilante, como a que se via nos reclames dos fixadores de placa, onde invariavelmente uma estrela brilhava num canino do modelo. E com ele também entrou na cozinha um perfume muito familiar.

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por T.



por Tânia Raposo


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