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Not quite sun, not quite the moon



Domingo, 08.12.13

O resto é paisagem


E era por ser domingo que o ti’Toino estava ali, de rabo alçado, olhando para a obra de arte encostada ao contentor do lixo. As duas mãos de esqueleto, esquálido do quico às botas 46; as duas mãos agarrando uma paisagem sombria, com patos e nenúfares num lago cinza-azulado.
Ti’Toino não tinha caçado nada; ao contrário do seu cunhado, que naquele instante se aproximava do perímetro deite o lixo no lixo; o seu cunhado que, garboso e vaidoso dos seus dois pombos e do coelho de olhos vidrados, vinha também ele armado, verde-tropa mas sem quico — um cabelo ondulado ao natural, prata mantida a sabão azul e branco, ostenta-se sempre.
'Vô’Rael chegou-se ao ti’Toino, deu dois toques na madeira da moldura com o cano serrado e declarou: «esse quadro é meu, Matias.» O outro, sacana e já recto de corpo todo feito ao avô, obstou: «era a tua mulher veio pô-lo aqui, agora é meu.» Ti’Toino agarrou no quadro mais feio do mundo, que tinha estado anos perdidos na sala dos meus avós, e tentou marchar em direcção ao seu portão. O ‘vô’Rael agarrou-o pela fralda. Engalfinharam-se, espingardas ao ombro, e acabaram os dois no alcatrão, os pombos esmagados, a minha avó sem canja para o almoço, a ti’Florinda sem nada para o jantar.
Toino tornou-se proprietário da pintura horribilis e pendurou-a no hall como quem põe um santo num altar. Horas depois, Israel provocaria uma reviravolta, entrando falinhas mansas na casa da irmã para o resgatar. «É meu, Florinda, e toma lá um coelho para estufar.»
Palavra da salvação. A glória tarda mas não falha, senhor.

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por T.



por Tânia Raposo


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