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Not quite sun, not quite the moon



Quarta-feira, 04.12.13

Marruas, 10 points

O bisa Marruas era um homem alegre, beberrão e gentil. E era com espalhafatosa alegria que atirava loiça de cozinha, bibelôs e, às vezes, panelas quando chegava da taberna bem entornado, a cantar.
Na passadeira rococó do longo corredor da casa velha, eu mantinha-me quieta, a apreciar o espectáculo. Ele entrava pela porta do fundo, que dava para o anexo das madeiras e dos cestos, e eu, porque o Blackie dava sinal lá fora, arrastando a corrente e ladrando, estava a postos na outra ponta quando Marruas aparecia no palco, triunfal.
Primeiro atacava a bancada da cozinha, na primeira à direita. Normalmente, procedia ao lançamento de um prato e começava a trinar. Mais um passo largo, em balanço livre e descoordenado, e pegava num dos pierrots das prateleiras minúsculas. A prima Mena, que os pintava e lhes punha uma gola — para mim, um babete chique —, mandava novas remessas todas as semanas.
Cantava tão bem, o avô. Esticava os braços grandes, desenhando bolas e mais bolas no ar bafiento e escuro da casa. Cantarolava canções portuguesas. E fazia tudo para não me acertar com o fogo-de-artifício que arremessava. Eu ria-me muito, juntava as palmas das mãos por cima da testa e dos caracóis e sabia como tudo ia acabar: abria-lhe a porta do quarto, ele tombava e o Jesus da Cruz ficava a olhá-lo lá da parede, aguardando a noite, que traria um novo festival.

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por T.



por Tânia Raposo


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