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Not quite sun, not quite the moon



Terça-feira, 12.11.13

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Há 30 anos andava a despejar os armários da avó, preocupada em bater com as tampas dos tachos de barro, em atirar as cantarinhas ao chão. Tanto ruído e tanto silêncio naquela cozinha, único centro das minhas inquietações. Uma fralda, um alfinete-de-ama e muitos cacos — eis quanto.
Esta noite sonhei com o palacete da Vila, uma casa grande que nunca pude visitar. Admirava-a pulando junto ao jardim murado que a cercava; uma vez, de relance, suspensa na ladeira íngreme durante um milésimo de segundo, consegui ver o lustre do que pensava ser o salão. Foi uma sorte tremenda: portadas sempre fechadas, paredes corridas a enleio verde, o palacete estava abandonado ao destino das heranças aldeãs, aquelas que muitas vezes calham aos imigrados citadinos num incómodo de vida & morte, Lda., que gratamente dispensariam. Dizia, foi uma tremenda sorte, pois nessa manhã a criadagem vinda por arrasto da capital sacudia flanelas, batia tapetes, enquanto dois senhores de chapéu preto conversavam ao portão. A janela estava aberta e eu vi o lustre.
Construí o palacete da Vila na minha cabeça como quem compõe uma casa de bonecas. Labor de precisão, moroso, terno.  O mês passado, tudo se desmoronou: a casa grande está a venda, há imagens da sala de jogos, dos quartos, do fogão a lenha. Há imagens de tudo, para todos verem. Não há lustre, não há nada. E esta noite visitei-a e foi horrível, violentou-me vê-la assim.
Guardei um tacho de barro. Não quero voltar a tua casa, avó. 

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por T.



por Tânia Raposo


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