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Not quite sun, not quite the moon



Domingo, 13.07.14

Tempo

Calçada portuguesa e folhas de jacarandá

[Fotografia de TR]

 

Os tempos são três: presente das coisas passadas,
presente das presentes, presente das futuras.

Santo Agostinho, Confissões

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por T.

Terça-feira, 08.07.14

Aqui, ali

Quando hoje de manhã por fim entrei no táxi, faltaria à verdade se não dissesse que me lembrei dos bichos, das bolas rotas e de nós, correndo ou parados, brincando às estátuas ali. Mas depois o motorista retomou a enjoativa picardia meteorológica, eu entrei em automático e disse qualquer coisa sobre o índice de pluviosidade nos verões de Portugal Continental, bateram as 10h00, menos uma nos Açores, e o Canto esfumou-se.
Era uma tarde assim, como esta de 2014 em que o calor voltou. O televisor estava ligado a uma extensão quilométrica, pousado em cima do alto degrau da antiga pensão. Em cima do alcatrão, sentados à chinês sobre uma manta minderica, estávamos nós. Nós éramos os primos, de idades várias, com os nossos calções de algodão, as nossas blusas de alças e os nossos pés descalços. Éramos todos, embora fosse raro – ou mesmo nunca tenha acontecido – estarmos todos ali. Nós éramos todos e a felicidade era isso. Isso e ver os Jogos Sem Fronteiras ali.
Atrás dos primos, em frente à velha pensão, a casa da complacente Lina, a casa que era só metade, como se estivéssemos a olhar para um daqueles desenhos da nossa infância e o cortássemos ao meio, deixando a vivenda partida, porque a outra parte era da parceira de confisco de bola do avô Israel, a tia Violeta. À direita, o quintal do fantasma do seu falecido marido, o tio Filipe, que eu vi cirandar muitas vezes naquela terra batida, com um bando de cães todos vindos com ele do Além. A fechar, a casa dos avós, com couves e roseiras que viviam à vez, e a da tia Florinda, sem jardim nenhum.
Hoje morreu a última habitante do nosso Canto, a última das tias. Pouco interessa agora o que foi feito de nós ou dela, porque já não estamos ali. Já ninguém está ali. E então ali não é um lugar imaginado e não consegue ser só um lugar real. Ali é o Canto, que é a Vida, e as estátuas que lá somos hoje, vistos daqui.

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por T.


por Tânia Raposo


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