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Not quite sun, not quite the moon



Terça-feira, 29.04.14

Instantâneos Primaveris [II]

 

 

 

 

 

 

 

[Fotografias de TR]

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por T.

Quinta-feira, 24.04.14

Instantâneos Primaveris

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 [Fotografias de TR]

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por T.

Quarta-feira, 16.04.14

A Pintassilgo

Pintassilgo soava mal, mas ficou.
No quarto 548, Rosalindo continuava em dúvida quanto à melhor posição para a fixação do reposteiro e isso causava-lhe grande ansiedade. Não admitia que Graça pudesse regressar e vê-lo naquilo, com a sanefa e os pequeníssimos clips espalhados na alcatifa, o folho murcho e amarfanhado aos pés, derrotado. Por Deus, tinha de concentrar-se e tomar uma decisão, ponderada, racional, com base nos cálculos que tinha apontado no bloco pautado. Sim, era absolutamente fundamental que o reposteiro não quebrasse a luz em demasia, que o folho caísse em largo arco 20 centímetros abaixo do topo, criando um efeito de auréola à luz das primeiras horas da tarde, entre a cama e as duas poltronas de saia. Estando o 548 destinado a ser plateau de nubentes, o caso era seríssimo, e Rosalindo não podia falhar.
Berbequins eram como robôs de cozinha, ou pelo menos foi assim que venceu o medo e subiu o escadote, com um orgulho tolo e solitário, pensando no Exterminador. De costas, se lá estivéssemos, deitados no chão, víamos a coroa de cabelo do marido de Graça como farta cabeleira, com traseira longa e ripada, ignorando por completo, assim, a calvície em avançado estado que lhe tomava já o espaço entre a testa e o cocuruto. Vemos, então, Rosalindo fixando o reposteiro, compondo depois as várias camadas de tecido, na verdade três, que vestiam a janela, tudo para chegarmos a este momento, agora, em que pendura o afamado folho, constante no projecto inicial daquela suite, por ele concebido, com o qual conseguira, fazendo um brilharete na agência bancária, arrematar o crédito e convencer o gerente de que aquele era um empreendimento fulcral para o lugar de Viço, entre uma nacional e a entrada para a auto-estrada. Para isso, em muito contribuíra a esposa, também presente no acto, assistindo à comunicação do futuro dono da Pintassilgo com breves ah e puxando, na recta final, do lenço bordado com as iniciais do casal que lhe dera sua mãe no dia da boda. As mesmas letras que ele, em gestos graciosos, desenhou no ar, não sem antes, evidentemente, ter treinado longas horas para que conseguisse fazê-lo em espelho para o moço ver e perceber.
Quando Graça regressou ao piso 5, o elevador não lhe deu música e a chave-mestra encravou. Possante, mandou-se contra a porta, que destrancou. Foi encontrar Rosalindo, na King-size vinda de New Jersey, envergando lingerie rosa, com os berloques dos cortinados presos nos pulsos e os olhos cerrados. Desmaiou, que é diferente de desfalecer, e era assim mesmo que tinha de proceder. Quando voltou a si, Rosalindo estava de pé, eram 15h00 e auréola era perfeita. Beijaram-se muito nas faces, sentaram-se nas poltronas e Graça ajeitou-lhe o papillon. A Pintassilgo estava pronta para a inauguração.

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por T.

Sexta-feira, 04.04.14

Cruzeiro

Aquelas amoras silvestres, tão poucas, os espinhos espetados na sebe logo ao início da subida, os meus dedos dos pés encavalitados rompendo a lona das sapatilhas brancas, o cheiro dos pinhões esmagados pela pedra que partia a pinha e deixava a riqueza daquele dia desfeita ao aparecer, tudo aquilo era a primeira e única manhã do ano em que íamos ao Cruzeiro.
Naquele tempo, era longe. A rua calcetada, só ela, era larga e funda, ia da barraca do Zé Moé, que ainda não se tinha imolado com as mantas de papa em chamas, e onde agora estão dois bancos e um canteiro com sardinheiras de que ninguém quer saber, até à íngreme estrada alcatroada, que continua a desembocar na capela dos acabados de morrer, a do Santo António, a das velhas piadeiras e do calor dos funerais estivais, na terra em que todos resolviam partir nas minhas férias de Verão.
Era longe, o Blacky corria, gordo de todas sopas de pão que eu lhe despejava na tigela, mais orelhudo que nunca naquele fresco da soltura, talvez se lembrasse de ter estado ali há trezentos e tal dias, cumprindo as vésperas de mais quatro estações de ferrolho e corrente no pátio da nossa casa. Seixos, alcatrão, brita, e finalmente o chão forrado a terra barrenta. Eu ia atrás dele, prevendo a tintura de iodo que haveria de me escorrer pelas pernas e fazer menos vivas as minhas joelheiras, e foi o que de mais parecido às cenas dos livros de aventuras de jovenzinhos eu identifiquei, eu e o cão, serra acima, correndo, num contentamento esquecido, a arfar.
Era bom que chegar fosse tão longe ainda.

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por T.

Terça-feira, 01.04.14

O tiro pela culatra

Último dia antes de Abril.
 [Fotografia de TR]

 

A espingarda estava no sótão. Israel subiu as escadas de três em três degraus, pernalta e lesto, e foi buscá-la. Apareceu primeiro o cano, empurrando a porta de latão como um anjo segura a seta, e a seguir o rosto do avô, só uma redonda e enrugada bola de carne vermelha, os olhos raiados a raiarem a cara e o corpo inteiro, a gente já vai ver quem é que está grávida, e voltou a pisar o mármore, agora pah, pah, pah, devagar, e era como no Dallas, sem cavalo e sem chapéu, mamã.
A mãe, terrificada, agarrada ao marido, ao seu casaco de bombazina, tão enjoada com aquele odor retardado a tabaco, não se decidia a vomitar ou a desmaiar. O pai era grande, mas encolheu-se e deu corda aos sapatinhos 46 quando Albertina gritou: para casa da Gracinha, Jesus!
Foram pela rampa-esfola-joelhos e entraram na velha pensão,
onde então morava a prima Graça. A grávida nos braços de Humberto, já muito achacada, a avó em prantos, e o diabo encarnado em assalto às portadas de madeira, pum, pum, pum, vou-te matar.
Não sei bem quem queria ele matar, se a grávida, se o filho, se a mulher, mas ficaram cá todos para depois me contar. Foi a 1 de Abril de 1982, quando a minha mãe desceu ao quintal para me anunciar. O avô, tomado pelo tinto de Alpiarça e num clássico ataque de fúria, sabe lá Deus o que lhe ia na cachola, resolveu que era hora de atirar. Salvou-nos a Gracinha, que nos acolheu, à mãe, à avó e ao pai, no quartinho de baixo da pensão.
E eu lá berrei, sete meses passados, nascida e avisada, quando ainda era uma esperança, de que a verdade não salvou ninguém.

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por T.


por Tânia Raposo


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