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Not quite sun, not quite the moon



Sexta-feira, 27.12.13

FDP

Albertina crescia às cachinas do irmão Toino mais do que quando atava rolhas ao calcanhar com guita grossa e brincava às senhoras da cidade. Em casa de uma das senhoras da cidade, porém, iria aprender uma lição para toda a vida.
Era sábado e chovia muito. As terras empapadas não deixariam que as meninas dos laços grandes e a minha avó, sem laço e pequenina, brincassem fora de portas. Por isso, a senhora da cidade untou pão com azeite e pô-lo num prato com desenhos de pássaros dourados para que as suas crias e a outra comessem. O pai das raparigas, então, achou que deveriam aproveitar bem aquela tarde e pôs um grande círculo preto na grafonola. As meninas deviam limpar os beiços e preparar-se, compondo as saias dos vestidos em cima do veludo do sofá, para ouvir o senhor presidente. Albertina, que não sabia quem era aquele senhor presidente e nunca tinha visto um disco, estava em grande excitação.
Os primeiros sapatos da minha avó baloiçavam, alinhando a coreografia pela experiência das amigas, e o homem da casa pousou a agulha no círculo preto. Num volume altíssimo, na sala de tecto alto que fazia eco, o senhor presidente começou a discursar. «Meus Filhos da Pfffff». A mão voltou a pôr a agulha no primeiro risco e, mais uma vez, o senhor presidente clamou «Meus Filhos da Pffff». E — era assim que ela me contava a história o pai das meninas disse, com uma expressão seríssima: «Por favor, meninas, saiam da sala que o Dr. Salazar quer desabafar.»
Albertina, rindo muito, dizia sempre, no final da história: não há maldade que tenha mais poder do que a gargalhada de uma criança.  

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por T.

Sexta-feira, 20.12.13

O estranho caso do perfume grená

 

No quarto da avó, nas prateleiras que guarneciam o lado direito do guarda-fatos de pinho envernizado, estava o tesouro interdito: o perfume do frasco grená, coroado com tampa em forma de rosa, todo ele vidro fosco, com letras rococó a ouro. Rininha e eu, então as caçulas da família, estávamos proibidas de subir o banquinho para tentar lá chegar. Quanto muito — e só em dias especiais (quiséramos nós que fosse sempre noite de São João e os balões ateassem no ar)  a avó pegava nele, no tesouro, e borrifava-nos, lóbulos e pulsos, e nós rodávamos as saias de pregas que todos os anos eram diferentes, costuradas na velhinha Singer, todos os anos iguais.
Uma tarde, seis horas e a canja a fumegar, Rininha e eu fomos chamadas à cozinha, mas não para jantar. A avó tinha a cara muito rosada, os olhos entristecidos. Falou-nos da decepção, palavra esquisita. Como podíamos nós ter traído assim a sua confiança? Tinha sido generosa, naqueles raros mas benévolos gestos de aspergimento.  Como podíamos ter esvaziado assim o precioso frasco grená?
Em pranto, Rininha e eu, amargando a falsa acusação, chorávamos para dentro dos pratos côncavos do jantar. A avó, calada, preparava mais um frango para corar. E o avô entrou, vindo de um funeral, homem lindão, dalim, dalão. Dentes de uma brancura cintilante, como a que se via nos reclames dos fixadores de placa, onde invariavelmente uma estrela brilhava num canino do modelo. E com ele também entrou na cozinha um perfume muito familiar.

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por T.

Quarta-feira, 18.12.13

No meio é que está a virtude

 

O Correio da Manhã é o melhor jornal de Portugal. Porque foi o CM que fez de mim a menina de seis anos que soube muito antes do moço pimpão e saltitão, que fez pop-up do Prós e Contras para o Governo, o que era o verdadeiro empreendedorismo.
O meu pai herdou do seu a qualidade de empilhar. Empilhava loiça suja, empilhava roupa no chão e, claro, empilhava também as revistas que vinham bem aconchegadas no meio do jornal. As páginas centrais dessas bíblias do País eram preenchidas por fotografias de literatura erótica para papás, uma versão muito antiga do que agora degenerou em tons e sombras do que não lembra ao diabo; e, entendamo-nos, só o que lembra ao diabo é efectivamente bom.
Ao contrário da avó, que deitava tudo no contentor, eu fazia uma análise crítica do potencial da tralha empilhada. No caso das revistas, esmorecidos outros interesses, pareceu-me evidente o modelo de negócio a aplicar. Rasguei cuidadosamente as páginas, tendo especial cuidado em não aumentar os furos dos agrafos que marcavam as coxas das raparigas, e cataloguei o material. Havia as menos despidas e de lisura pouco fogosa; e as de cueca a rasgar os glúteos e com maminhas balão. Porque a justiça sempre me guiou, marquei as primeiras a 5 escudos e as segundas a 10.
A escola primária nunca tinha conhecido tanto fervor no intervalo das 10h30. Entre um pacote de leite escolar e um papo-seco com manteiga, os homens de amanhã acorreram às traseiras da cantina e fizeram de mim a menina mais rica da aldeia. Três foram fiados, sobraram dois.
À noite, quando a mãe abriu a mochila cor-de-rosa, o meu sonho acabou. Palmadas e uma ordem para devolução do material, que viria a ser apreendido pela censura maternal. No dia seguinte, os meus companheiros foram intimados a pôr fim àquele Carnaval. Mas, por usufruto, exigi ficar com 25 % do valor total.

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por T.

Segunda-feira, 09.12.13

Un malheur mieux supporté

 [Fotografia de TR]

Le bonheur n'est peut-être qu'un malheur mieux supporté.
Marguerite Yourcenar

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por T.

Domingo, 08.12.13

O resto é paisagem


E era por ser domingo que o ti’Toino estava ali, de rabo alçado, olhando para a obra de arte encostada ao contentor do lixo. As duas mãos de esqueleto, esquálido do quico às botas 46; as duas mãos agarrando uma paisagem sombria, com patos e nenúfares num lago cinza-azulado.
Ti’Toino não tinha caçado nada; ao contrário do seu cunhado, que naquele instante se aproximava do perímetro deite o lixo no lixo; o seu cunhado que, garboso e vaidoso dos seus dois pombos e do coelho de olhos vidrados, vinha também ele armado, verde-tropa mas sem quico — um cabelo ondulado ao natural, prata mantida a sabão azul e branco, ostenta-se sempre.
'Vô’Rael chegou-se ao ti’Toino, deu dois toques na madeira da moldura com o cano serrado e declarou: «esse quadro é meu, Matias.» O outro, sacana e já recto de corpo todo feito ao avô, obstou: «era a tua mulher veio pô-lo aqui, agora é meu.» Ti’Toino agarrou no quadro mais feio do mundo, que tinha estado anos perdidos na sala dos meus avós, e tentou marchar em direcção ao seu portão. O ‘vô’Rael agarrou-o pela fralda. Engalfinharam-se, espingardas ao ombro, e acabaram os dois no alcatrão, os pombos esmagados, a minha avó sem canja para o almoço, a ti’Florinda sem nada para o jantar.
Toino tornou-se proprietário da pintura horribilis e pendurou-a no hall como quem põe um santo num altar. Horas depois, Israel provocaria uma reviravolta, entrando falinhas mansas na casa da irmã para o resgatar. «É meu, Florinda, e toma lá um coelho para estufar.»
Palavra da salvação. A glória tarda mas não falha, senhor.

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por T.

Quarta-feira, 04.12.13

Marruas, 10 points

O bisa Marruas era um homem alegre, beberrão e gentil. E era com espalhafatosa alegria que atirava loiça de cozinha, bibelôs e, às vezes, panelas quando chegava da taberna bem entornado, a cantar.
Na passadeira rococó do longo corredor da casa velha, eu mantinha-me quieta, a apreciar o espectáculo. Ele entrava pela porta do fundo, que dava para o anexo das madeiras e dos cestos, e eu, porque o Blackie dava sinal lá fora, arrastando a corrente e ladrando, estava a postos na outra ponta quando Marruas aparecia no palco, triunfal.
Primeiro atacava a bancada da cozinha, na primeira à direita. Normalmente, procedia ao lançamento de um prato e começava a trinar. Mais um passo largo, em balanço livre e descoordenado, e pegava num dos pierrots das prateleiras minúsculas. A prima Mena, que os pintava e lhes punha uma gola — para mim, um babete chique —, mandava novas remessas todas as semanas.
Cantava tão bem, o avô. Esticava os braços grandes, desenhando bolas e mais bolas no ar bafiento e escuro da casa. Cantarolava canções portuguesas. E fazia tudo para não me acertar com o fogo-de-artifício que arremessava. Eu ria-me muito, juntava as palmas das mãos por cima da testa e dos caracóis e sabia como tudo ia acabar: abria-lhe a porta do quarto, ele tombava e o Jesus da Cruz ficava a olhá-lo lá da parede, aguardando a noite, que traria um novo festival.

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por T.

Segunda-feira, 02.12.13

Manhãs

 [Fotografia de TR]

Nunca os veremos outra vez.

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por T.

Segunda-feira, 02.12.13

A Restauração da Atenção

Fui à papelaria da Dona Manela comprar uma esferográfica.
A Dona Manela tem um neto que anda de triciclo e alaga os dossiers; foi ele que me abriu a porta, com uma felicidade de dentinhos virgens, maravilhado com o dlim dlão da campainha.
A Dona Manela tem um cão gorducho, que passa as tardes — com o vagar que só os cães têm  ao sol, no degrau da entrada; um bicho que é um senhor de olhos remelosos, maior sinónimo de pachorra que conheci.
Como o senhor Augusto, da ourivesaria vinte metros adiante, onde fui buscar um carrossel em prata para o meu recém-português, a Dona Manela não estava ensimesmada. A Dona Manela fez negócio comigo  e estava feliz.
Tagarelámos. No remate, uma atençãozinha. É disso que precisamos. E temos de regressar àquele  a este  País.

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por T.


por Tânia Raposo


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