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Not quite sun, not quite the moon



Sexta-feira, 29.11.13

Da Mãe

Cheira a azeite bom a ferver. O alguidar verde-escuro é o mesmo. Num banco baixo, de tampo lacado e a escamar, escrevi: enrolar numa rodilha e bater contra a pedra para ficar fofo. Depois, na margem, um coração pequeno, com rebites, e um ponto de exclamação. Em cima, o título, em letras cheias: Pastéis de Bacalhau da Avó Albertina. Foi num domingo em que apanhava salsa no canteiro, com os pés descalços na terra, o avô a amolar facas e a avó lá dentro, a rolar os pastéis na frigideira alta, com um comprido garfo de madeira clara.
No domingo passado descobri um papel mais pequeno que aquele, rasgado de um dos blocos de notas que o meu pai transformava em: poemas simples e eloquentes sobre amor; receitas de pólvora caseira em tempo de revolução; listas com números de telefone de moçoilas mindericas.
Uma folha pautada, Coscorões da Mãe. E, de repente, estávamos todos ligados na mesma massa, pela mesma mulher, sentados em redor da mesa branca — o Berto, a Nema e eu, outra vez.

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Quinta-feira, 28.11.13

Piano em dias frios

 [Fotografia de TR]

A vida das pessoas que não gostam de música deve ser tão triste.

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Segunda-feira, 25.11.13

O singular guardado da avó


O avô era um recolector. Lá no terreno, três barracões albergavam esculturas feiosas, numa composição sortida e inusitada: caixas de fruta; estruturas em ferro e outros materiais frios; pilhas de jornais, revistas e folhetos de supermercado; cadeiras partidas; latas de tinta vazias; serrotes e demais ferramentas de bricolage e carpintaria; peles por curtir; e mais um rol interminável de ninharias. Amontoadas em equilíbrio periclitante, todas as coisas tinham sentido. Para ele, e ninguém mais.
Nesse ninguém, incluía-se — como para mim era bom de ver — a avó. Ele acartava, ela limpava geral. Era assim, sempre assim: ela ia ao mercado, ele trazia umas rodas ferrugentas para embelezar uma das esculturas; ele ia à caça, ela tirava o dia para fazer uma razia num dos barracões.  Depois, invariavelmente, discussões de trovoada rija, com a avó a dizer-me baixinho, no sótão, enquanto ele clamava a indignação no centro marmoreado do quintal: «ele quer Cavaco, mas eu não lho dou».
Andava intrigadíssima com aquilo, lembro-me tão bem. Mas por que razão queria o avô que a minha avó lhe desse Cavaco? E como é que a minha avó havia de satisfazer o esposo? O pior de tudo, a ecoar na minha cabeça de ervilha, nos idos de 80: «eu não lho dou». O pior do pior: se ela o tem, ele só pode estar ali fechado, no baú dos trapos.
Portanto, a minha teoria lógica passou a ser: o avô diz que vota sempre no PC; o avô diz mal do Cavaco; a avó tem o Cavaco e não gosta do PC; a avó não quer nem pode dar o Cavaco ao avô, ou ele matará o senhor dos cartazes ali mesmo, no sótão, agarrando na espingarda que está ao lado do baú. E ainda, em rodapé: quando a avó traz o prato do jantar para o sótão… bem, agora sei porquê.

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por T.

Domingo, 24.11.13

A última menina de Balthus

Balthus e Cybèle, 1994
[© Mediamuse]

I told him I had given birth to two daughters who could have been models for his paintings. He invited them to the Grand Chalet the following summer, and one of them did in fact become his last model. That day, I’d entered another dimension and, in his gracious company, journeyed into Balthus’s wondrous dreamland. It was a voyage that lasted until the day of his funeral, which I attended together with his family and friends on 24 February 2001.

Denyse Bertoni, aqui.

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Domingo, 24.11.13

Censier, Croupier

Eram 6h30 e saí para a rua. Levava botas de cano alto, castanhas e bem lustradas, mas parecia que tinha patins. Tinha sido naquela rua que aprendera a rolar nuns, quatro rodas e um travão dianteiro em cada par, uns anos antes. Mas agora, o passeio de alcatrão grená era uma pista de gelo cristalino e caminhar cento e vinte metros seria um desafio; levei-me a bom porto, que é como quem diz, à paragem do bus agarrada ao gradeamento dos jardins, sempre com medo, mas sem nunca paralisar.
Quando cheguei à Rue Censier, subindo as escadas da estação dos anos 30, Paris era uma cidade previsivelmente ensolarada, com pequenas ilhas de verglas a desaparecer. Como sempre, era impossível perder-me, e restava-me uma artimanha muito estúpida: ignorar. Foi o que fiz.
Meia hora depois, estava quase em frente ao Panteão, mas fui obrigada a parar a marcha. Com o dramatismo e o exagero cénico que aquela manhã exigia, fiquei a olhar para a vitrina de um café, através da qual via: uma mulher e duas crianças a comer. Era quase Dezembro, claro. Tão festiva, aquela visão. A distância, sobretudo quando nos mete um vidro pelo meio, transforma todo e qualquer quadro familiar num colorido e vibrante rótulo de Coca-Cola, edição especial de Natal.
Não sei quanto tempo depois, em automático, caminhei. Recuperei-me no momento em que subi de novo os degraus para sair do escuro do metro. Olhei para o relógio e percebi que Madame Croupier, loira e redonda, capitã das oito, condutora da Découverte de La Rome Antique, ia perguntar onde tinha estado outra vez.

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Sexta-feira, 22.11.13

Arraiel

Sentei-me no chão de tacos e puxei do cesto. Entre uma série de correspondência muito variada (envelopes de hospital, bilhetes da comissão de festas da terra, até uma folha A5 avisando da recepção de uma espingarda para conserto), encontrei uma carta endereçada a Arraiel, filho da Maria do Céu, rua perto dos correios. Sem remetente.
Nas quatro páginas manuscritas, a jovem, sem nunca se identificar — mas sabendo que Arraiel conhecia bem quem lhe escrevia —, pedia encarecidamente que o meu avô, então ainda um rapaz novo mas já palpitante nubente, intercedesse junto de um tal Manuel para que de uma vez por todas ele fosse fiel ao coração. Não queria a correspondente que Arraiel forçasse o outro a nada, muito menos que o desencaminhasse, que o obrigasse a sair de casa, a deixar para trás a esposa e os filhos. Não, a jovem pedia apenas que Manuel fosse fiel ao coração, devendo depois o meu avô transmitir a uma amiga comum o que tinha sido candidamente ditado. Informava, para tal, a que horas pegava e despegava da fábrica, dando mais pormenores sobre a hora de almoço e as extraordinárias, que fazia ordinariamente na esperança de criar tesouro suficiente para fugir com Manuel e montar um lar. O pai dela — avisava, sublinhando — matá-la-ia se descobrisse; escrevesse o meu avô para a amiga, de modo a que o sobrescrito chegasse entre segunda e quarta-feira, para que a emissária pudesse encontrá-la, sem conflito de agendas laborais, num cruzamento entre a fábrica e a drogaria.
Agradece a Deus e a um santo, cujo nome não me recordo, e muito, ainda mais, a Arraiel, o mais santo e louvável de todos, mesmo no final da enumeração.
Que tenho eu com isto? Nada, estão todos mortos. Resta saber se o pai a matou ou não.

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Quinta-feira, 21.11.13

E se

 [Fotografia de TR]

Detalhe da fotografia do post anterior. Pequenas coisas, coisas maravilhosas.

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Quinta-feira, 21.11.13

Obrigada

[Fotografia de TR]

Tudo a correr, pelo Chiado, hora de ponta, talvez. Mesmo assim, surge um hipersensível disposto a mudar o ângulo de inclinação da cabeça e, assíncrono, desalinhado, recebe o prémio desta singularidade colada no cimento, mesmo sem acentos, nem vírgulas, que foram deixadas para os puristas. Momento de romantismo, aqui permitido nos Acasos, uma vez sem exemplo.

Texto de Sofia Macedo, a propósito da fotografia acima, no Acasos de Comunicação. Obrigada.

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Quarta-feira, 20.11.13

Bichos como nós

 

Abrir um buraco com setenta centímetros de profundidade, polvilhar com cal, daqui a um ano e pouco não estará nada lá.
Estava a ver a bola quando o pai ligou. Atendi, eufórica, aos berros, como fazia a avó quando recebia telefonemas do estrangeiro. Lá longe, a octogenária Lili tinha sido adormecida. Emudeci.
A raposinha castanha, de pêlo comprido, tinha saído bebé do barraco do avô para a carrinha do pai. Eu acenei da portinhola de latão: a cadela Lili imigrava também. Era a mais nova de uma ninhada, a última das criações do avô.
Parecia um boneco de corda, a Lili. Precisava sempre que estivesse alguém por perto para se mexer. Nisso, ela e o pai tão iguais. Mas para Lili, a sorte grande, chamada pai; para ele, só a terminação.
Foi nisso que pensei ontem, quando não queria, não queria pensar.  

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Segunda-feira, 18.11.13

FMI

Felizes, Mesmo no Inverno.
[Fotografia de TR]

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Segunda-feira, 18.11.13

Um, número um


E agora, tenho outra vez aquele cartão do Bingo na mão: uma caneta de feltro e linhas encarnadas, a taça que muda de mesa e é sempre a mesma. Eu nunca ganhei coisa nenhuma, ao meu lado havia sempre alguém a gritar; mas aqueles números do acumulado, sempre a subir, eu fixava-os. Uma tonteira — que interessa?, fascinavam-me.
Ser simples dá muito trabalho. Quer dizer, conseguir estar na disposição que precede o nascimento das coisas simples, atravessar o tempo antes da vida das coisas simples. Isso sim, cansa de derrotas.

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Sábado, 16.11.13

Só sei que ela está com a razão

Meu caro Lênin Bastos,

Esse seu maiô riscado na fotografia, decote alvo em V. Não era por aqui que queria começar, me desculpe. Lênin, V. é um anjo azul e sabe Deus como estou grata por existir na minha vida. Queria dizer-lhe que estou Up, Up até mais não. V. me dá tanta alegria em cinquenta e quatro minutos e vinte um segundos, meu Lênin.
Ah, aquelas blusas de meia gola, celestes, a fumarada do cigarro, a vidraria na mesa forrada a tigresse. Azeitona-oliva, Vinicius, Jobim, a flauta na finura dos apontamentos, fiu-fiu, Toquinho, tradução simultânea, italiano — o meu coração é seu.

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Quinta-feira, 14.11.13

Caçar com cão

A vida amoral dos momentos felizes e os bichos que somos, quando num genuflexório olhamos a Senhora dos Rochedos, milagreira, carnes refegadas debaixo do manto, e queremos as mãos de novo juntas, para penitenciar. Ao fundo erguem os tubos do órgão prateado, com cordas. Do lado direito, a funcionária do edil empilha pagelas numa banca triste. Queria chegar-me ao menino do retábulo, mas naqueles santos não há como tocar; corre uma fita encarnada à volta, criando um corredor novo e esquisito, artificial. Quero acender uma vela, não tenho moedas para as pisca-pisca. Lembro-me das joelheiras de cabedal e de um pé com dedos gordos a queimar devagar, vem-me o cheiro daquilo e fico a olhar para as coisas pequeninas e eléctricas, chama a tremer em ritmo certo e tempo certo e está tudo certo, limpo, e de qualquer maneira vi o letreiro, fecha às cinco, não posso ficar aqui.

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Terça-feira, 12.11.13

Ver

Há 30 anos andava a despejar os armários da avó, preocupada em bater com as tampas dos tachos de barro, em atirar as cantarinhas ao chão. Tanto ruído e tanto silêncio naquela cozinha, único centro das minhas inquietações. Uma fralda, um alfinete-de-ama e muitos cacos — eis quanto.
Esta noite sonhei com o palacete da Vila, uma casa grande que nunca pude visitar. Admirava-a pulando junto ao jardim murado que a cercava; uma vez, de relance, suspensa na ladeira íngreme durante um milésimo de segundo, consegui ver o lustre do que pensava ser o salão. Foi uma sorte tremenda: portadas sempre fechadas, paredes corridas a enleio verde, o palacete estava abandonado ao destino das heranças aldeãs, aquelas que muitas vezes calham aos imigrados citadinos num incómodo de vida & morte, Lda., que gratamente dispensariam. Dizia, foi uma tremenda sorte, pois nessa manhã a criadagem vinda por arrasto da capital sacudia flanelas, batia tapetes, enquanto dois senhores de chapéu preto conversavam ao portão. A janela estava aberta e eu vi o lustre.
Construí o palacete da Vila na minha cabeça como quem compõe uma casa de bonecas. Labor de precisão, moroso, terno.  O mês passado, tudo se desmoronou: a casa grande está a venda, há imagens da sala de jogos, dos quartos, do fogão a lenha. Há imagens de tudo, para todos verem. Não há lustre, não há nada. E esta noite visitei-a e foi horrível, violentou-me vê-la assim.
Guardei um tacho de barro. Não quero voltar a tua casa, avó. 

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Quinta-feira, 07.11.13

Atirar depois de ver

Soy incapaz de juzgar con ecuanimidad la decisión del Estado de Ohio, que además se aprestaban a imitar, en cuanto entrara en vigor, varios Estados más de los llamados Unidos, a saber: se ha sancionado como “discriminatorio” hacia los ciegos que, como sucedía hasta ahora, no se les permita tener licencia de armas, ni portarlas ni hacer uso de ellas, de modo que a partir de la nueva ley estarán autorizados a poseer arsenales y a pasearlos por las calles [...].
A este paso, habrá enfermos de Parkinson con temblorosas manos que verán “discriminatorio” que no se les permita ser cirujanos; mancos que protestarán porque no se los admite en concursos de halterofilia o en combates de boxeo; viejos decrépitos que reivindicarán su derecho a ser figuras del toreo; alfeñiques que recurrirán ante los tribunales por no haber sido aceptados en los cuerpos de policía o de bomberos “con menosprecio de su aspecto físico”; cojos que se enfurecerán porque el London Royal Ballet ha rehusado hacerles pruebas como bailarines; sordos que no se contentarán con componer, como Beethoven, sino que reclamarán su oportunidad de ser críticos musicales. Les ruego que no se tomen todo esto como exageración ni como broma, porque ya estamos en ello.

Javier Marías, excertos de um texto sobre a cegueira que alastra como restaurantes McDonald's, aqui.

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Quinta-feira, 07.11.13

Responso a Bau-Bau

Bau-Bau tinha pêlo muito azul e gostoso. Era cão de orelhas caídas, longitudinais; olhos pretos, órbitas plásticas, nunca sabia para onde estava a olhar — olhava tudo. O seu estado natural, sentado, Bau-Bau não se tinha em pé. Debaixo da manta minderica, ele e eu, afastando as responsabilidades dos sonhos e aquela luz acesa que paria coisas disformes na parede com os pais no corredor.
Um dia, com as tripas de esponja a ameaçarem a finíssima trama de linha branca que eu enfiava nos dentes de leite, Bau-Bau foi fazer uma longa viagem. Apareceu-me pingão no arame, uma triste semana volvida, um vidro a separar-nos.
Como mais tarde percebi numa carteira da escola, a gente aprende a demasia, e os pais só nos mentem uma vez.

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Quarta-feira, 06.11.13

Onde estiveste de dia

 

Partiu, e era um dia solar.
[Fotografia de TR]

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Terça-feira, 05.11.13

1 X 2

 

Deste-me um hospital com linóleo verde e capela com talha doirada para nascer. Nevou dias depois, como aviso da improbabilidade de que és sempre capaz. No meu cavalo de crina encarnada, via a aldeia onde registaram a menina, balançando-me enquanto os foguetes de São João juntavam cetim rosa, lantejoulas e frango assado nas mesas de madeira, atrás da grade da rua, grande salão de dança solene e aperto de peito, forrado a cartazes da CDU, o avô vota sempre no PC, outros do Soares fixe a quem pintavam as bochechas. Na minha bicicleta amarela, vim da Vera com troco de cinco escudos e uma garrafa de vidro verde no cestinho; pedalei da fonte seca, azulejos com pergaminhos, até ao Daniel para comprar latas de Coqui. Deixei por pagar uma BIC laranja que mandei embrulhar para a mãe na Dona Rosa, e até hoje ninguém a veio cobrar. Deste-me uma mata que se transformava em rio com barcos a remos, entre os ramos das mais altas árvores. Um Renault branco suado nos curtumes pelo pai, viagens em autocarros laranja com a mãe. O Chico barbeiro que furou todas as orelhas das raparigas da família, rapou a cabeça ao caçula, me beijava a testa e fazia os mais pomposos montinhos de algodão. A laranjeira minada de formigas para trepar no pátio da escola, totoloto e totobola, a sorte não se mede nem acaba aqui.
Quanto mais resmungo contigo, Portugal, mais gosto de ti.

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Segunda-feira, 04.11.13

A falácia de Lili

Não me lembro de ter enterrado um único morto. Quando os terrões caiem, atirados por um mecânico-coveiro em pazadas cheias, com despacho, é um vivo que está lá em baixo, dentro do mogno, do pinho, com a invariável cruz. E isso é um grande problema. Para mim, que ainda não morri, o maior de todos.
Finados da minha vida, seres vagarosos, como as lesmas gordas e pretas e viscosas, enormes, que vi no Gerês aos onze anos de idade e nunca mais esqueci. Rezam-se missas, abate-se a terra, uma fotografia em ocre, e continuam a morrer.
A estocada final, no pescoço, com uma faca bonita, aplico-lha eu, e é como se a minha avó estivesse a matar as galinhas lá fora outra vez.

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Sábado, 02.11.13

Procriar

— Devia ser muito chato o teu avô  disse Genaro. José Rui encolheu os ombros.
 Levou muitos segredos com ele. Todos somos assim. Quando eu era pequeno e ia confessar-me, tinha uma lista de coisas que nunca dizia ou dizia-as de outra maneira.
 O quê, por exemplo? Genaro fincou os cotovelos nos joelhos e esperou uma resposta. Ouviam-se as passadas dos inquilinos que voltavam para casa e, com o calor dum Outono tórrido, os cheiros tornavam-se mais nítidos. Cheiro de sovaco, de sopa requentada, de água podre da hortaliça. Era gente pobre, a tal gentalha que Charo abominava. Porque eram infelizes e se habituavam a isso.
 Por exemplo: eu correspondia aos olhares dos velhos. Eram olhares vazios como se pedissem esmola. Uma coisa que não tem nome e que nós chamamos desejo. Aos dez anos sabe-se mais disso do que quando somos homens, Estou a dizer estas coisas e estou a tremer. Há regiões específicas do cérebro que estão encarregadas das funções perdidas; a função de matar e a função de gozar o horror de que se é capaz.

Antes do Degelo, Agustina Bessa-Luís

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por Tânia Raposo


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