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Not quite sun, not quite the moon



Segunda-feira, 23.09.13

Agora escolha

A vida tem dois mundos fechados. O que Agustina fez vivo na sua novela de estreia, em lamento, em luto pela descoberta da impossibilidade de regressar àquilo tudo, um presságio involuntário do que seria depois; o de Clarice, que levou a vinda inteira a gerá-lo, em fechamento, como quem quer saber o que é comer pão pela primeira vez, sem decompor o pão, sem saber raciocinar sobre ele.
Ou gosto de pensar assim.

Hoje, a primeira tarde de Outono.

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por T.

Segunda-feira, 23.09.13

As 68 Primaveras de Piedade

Maria casou virgem e grávida. Joaquina, com a mesma expressão eternizada na fotografia do casamento da sua outra filha, Vera, – ausente da festa, cumprindo dever de mãe – não foi à igreja. Mandou meia dúzia de tostões pela irmã-estafeta, também Maria de primeiro nome, e foi para o tear.
Maria foi para Moçambique. Há registos desse tempo de passagem entre a humilhação e a aceitação do destino. São slides em que aparece magra, já com o filho do pecado pela mão; são slides em que aparece de barriga espetada, sempre magra, já com a filha do acto consumado, com a graça do Senhor, no ventre.
Maria foi para os Estados Unidos. Continuou mãe, nos fundos de um armazém da loja-esperança, na casa de madeira que ajudou a construir, nos cheques postais enviados à família. Mãe de dois, mãe de todos, Piedade-mãe.
Maria regressou a Portugal. Veio avó para a casa da aldeia. Veio um contentor com cortinados, mesinhas de cabeceira, talheres, quadros. Veio um contentor com carros. Assim se transladam quarenta anos de espera.
Maria foi a feliz contemplada com um espectacular bónus: fique com menos uma mama, sinta-se mais leve, Maria!, e tente sobreviver. Afinal, hoje faz 68 anos, Maria, e ainda há surpresas, tanto para acontecer.

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por T.

Quinta-feira, 19.09.13

Arrumar o Verão

Le Professeur
Élève Hamlet !
L’élève Hamlet
(sursautant)
…  Hein… Quoi… Pardon… Qu’est-ce qui se passe… Qu’est-ce qu’il y a… Qu’est-ce que c’est ?...
Le Professeur
(mécontent)
Vous ne pouvez pas répondre « présent » comme tout le monde ? Pas possible, vous êtes encore dans les nuages.
L’élève Hamlet
Être ou ne pas être dans les nuages !
Le Professeur
Suffit. Pas tant de manières. Et conjuguez-moi le verbe être, comme tout le monde, c’est tout ce que je vous demande.
L’élève Hamlet
To be…
Le Professeur
En Français, s’il vous plaît, comme tout le monde.
L’élève Hamlet
Bien, monsieur. (Il conjugue : )
Je suis ou je ne suis pas
Tu es ou tu n’es pas
Il est ou il n’est pas
Nous sommes ou nous ne sommes pas…
Le Professeur
(excessivement mécontent)
Mais c’est vous qui n’êtes pas, mon pauvre ami !
L’élève Hamlet
C’est exact, monsieur le professeur,
Je suis « où » je ne suis pas
Et, dans le fond, hein, à la réflexion,
Être « où » ne pas être
C’est peut-être aussi la question

Jacques Prévert, « L’accent grave »,  Paroles, Éditions Gallimard

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Quinta-feira, 19.09.13

Aquela tarde tão azul

C. vinha de azul, flutuava com um vestido rematado a farripas, altíssima, driblando a calçada do Duque. Umas lentes largas, envoltas num dourado brilhante, hastes grossas enfiadas nos caracóis largos abaixo das orelhas, tapavam-lhe dois terços do rosto. Mas via-se felicidade nela, logo aos 100 metros de distância.
Quando se abeirou de mim, como uma mistificação da que conhecia, C. estendeu-me os braços pequeninos e as mãos finas, par dos seus pés 35, e foi o abraço mais feliz da nossa vida só nossa, a comum.
Meses depois, M. apagava-se daqui, fortuitamente, num daqueles destinos cinematográficos que estamos sempre a antever, mantendo ainda assim um semblante expectante  o dos cínicos vitalícios. M. e a claridade dos olhos de S., ambos se abalaram para a única região que podia acolhê-los juntos, em par tão individual — a memória.
E não sei se alguma vez voltarei a apertá-la a apertar-te C. no meu peito assim.

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Quinta-feira, 19.09.13

Ins.T.antâneos (VIII)

[Fotografia de TR]

Terceira geração.

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Quarta-feira, 18.09.13

Coisas simples e sem originalidade

O meu preto Cláudio trouxe-me mais um robalo. E a broa: duas fatias franciscanas que guardara com cuidado, no cesto dos reservados, para a sua sempre futura esposa – vai levá o vinho à minha mulhé – engoliram a poça de azeite; mastiguei-as e engoli-as também. Depois pensei, muito estupidamente, que o mundo é isso mesmo: coisas que engolem coisas que engolem coisas que engolem coisas. Como as matrioskas, até ao infinito das partículas invisíveis.
Levanto-me, arrojo duas cadeiras de plástico, e o António-todo-rugoso diz que fazemos contas para o ano, ou quando for. Caminho, encontro as praieiras, os montinhos de pevides, amendoins, as pazinhas no saco dos cajus, chambre, room, zimmer, barraca, menina?, tudo no lugar – o mesmo lugar. Subo a rua, cruzo-me com o roto-tonto-sempre-ao-serviço, enfio um postal no marco ao lado do mercado, compro os últimos papos-secos do Estica.
Setembro é mais frio aqui.

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Quarta-feira, 18.09.13

Luz

[Fotografia de TR]

Foi um bom Agosto, aquele. Para corrigir o défice, a troika exigira a matança das gaivotas e o fim das emoções contraídas a médio e longo prazo. Mas o povo, em uníssono, levantou-se em defesa dos crepúsculos. Depois, voltou a deitar-se na areia, que estava vaginalmente morna.
S.

Obrigada, S.

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Segunda-feira, 16.09.13

Voar, pousar, voar

 

[Fotografia de TR]

 

[Fotografia de TR]

 

[Fotografia de TR]


Para M., que plana sob, sobre a montanha-russa da vida.

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Segunda-feira, 16.09.13

Mar, mar, mar

Nuvens no céu e no mar.
[Fotografia de TR]


Quando a luz faz subir o mar.
[Fotografia de TR]


Espuma.
[Fotografia de TR]

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Segunda-feira, 16.09.13

Ins.T.antâneos (VII)

Equilibrista sénior impressiona com a sua pasta no antebraço, enquanto as placas repousam ao colo das habitués.
[Fotografia de TR]

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Segunda-feira, 16.09.13

Ins.T.antâneos (VI)

Sorte marreca.
[Fotografia de TR]

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Segunda-feira, 16.09.13

Ins.T.antâneos (V)

 

Negrão-ambulante discutindo com praieiras. Acompanha com colares de missangas, elefantes e outros bichos em madeira encerada. Indicadores em riste opcionais.
[Fotografia de TR]

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Segunda-feira, 16.09.13

Ins.T.antâneos (IV)

As idades da vida.
[Fotografia de TR]

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Segunda-feira, 16.09.13

Ins.T.antâneos (III)

Dueto belo, larghissimo.
[Fotografia de TR]

 


Até que um chapéu nos separe.
[Fotografia de TR]

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Segunda-feira, 16.09.13

Ins.T.antâneos (II)

Chapéus há muitos.
[Fotografia de TR]

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Segunda-feira, 16.09.13

Ins.T.antâneos (I)

 

«'Inda querem que eu vá ao mar! O mar está tão longe como o Senhor dos Passos... Ó Patrícia, olha que eu não molho os pés há mais de vinte anos. Chiça. Só venho aqui por causa de ti. Enervo-me e não quero sair de casa, Patrícia. Olh'ó mar, 'pariga.»
[Fotografia de TR]

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por Tânia Raposo


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