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Not quite sun, not quite the moon



Sábado, 31.08.13

A estranha beleza das coisas


Céu estranho e belo.
[Fotografia de TR]

When we've become two
Fluorescently blue

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por T.

Terça-feira, 13.08.13

Le vécu

Grisélidis Réal

 

«Genève, 11 septembre 1970

Cher Bertil Galland, [...]
Si je vous écris ce soir, c’est que je suis comme d’habitude à ma machine à écrire. Quelque chose me serre à la gorge. Vous savez, ce texte, il faudra à certains moments avoir l’estomac bien accroché pour le lire. Moi-même je m’épouvante par endroits. Je fais comme Maurice m’a dit, je raconte les choses d’une façon simple, sans fioritures ni adjectifs inutiles, sans camouflage exclamatif. Je vous dirai que c’est horriblement dur pour moi. Je suis malade, parfois je pleure, parfois je ris, parfois ça m’étrangle, je ne peux presque plus respirer. A-t-on le droit de livrer de tels textes au public ? Il y aura peut-être d’épouvantables réactions. J’ai peur pour vous aussi. Il faudra avoir les épaules solides. C’est la vérité, « rien que la vérité ». Mais justement. C’est ça qui est insupportable. J’en suis moi-même comme assommée.
Je dois vous dire que d’une part : j’en ai fait lire un premier grand fragment tapé à la machine à un écrivain, sociologue, qui a été enthousiaste et m’a traitée de « grand écrivain ». Mais d’autre part, j’ai fait lire ce même fragment à mon amant actuel, un historien, un érudit, et il m’a séance tenante abandonnée. Voilà ce qu’a fait ce terrible texte.
Suis-je maudite ?
Et pourtant je ne peux pas le quitter, il me fascine, il me bouffe la cervelle, les tripes. Je dois l’écrire, même si je subis la conséquence de ses ravages. Oui, le type a pris peur, il a pris la fuite ! C’est douloureux mais qu’y faire ? Et pourtant il admirait le style. Il n’a pu accepter le « vécu ».
[…]
Croyez-moi, c’est une angoisse perpétuelle, avec d’étranges joies, qui m’étranglent.»

[Grisélidis Réal, Mémoires de l’inachevé, Éditions Verticales]

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por T.

Segunda-feira, 12.08.13

Virgens há muitas, seus palermas

Fomos, de fininho, desenterrar a virgem. O areal era imenso, o dia estava claro demais. Primeiro, a fêmea traída pelo esboroar de um delírio PME (Para Mãe Estou), pôs o indicador no infinito azul, por certo figurando umas esperanças vãs, celestes, mas ela queria antes assinalar a terra, a sepultura de uma virgem que se tinha traído com o vaivém do casal. Na falta de santos, que nunca somos, espeta-se um pau na areia e mata-se o amor.
Tinha sido isso, assim mesmo, mas sem o pau. De modos que, sem objecto fálico erguido a Nosso Senhor, nunca por nunca o rasto da Senhora encontraríamos. «Ali à frente, ali.» Mas nada, nem vê-la. Então, a retroescavadora feminina, movida a motor duplo, tratou de fazer o milagre possível, que somos nós, entre as mulheres: revivemos tudo pela palavra, construímos uma memória com ela, nova, quando falamos entre nós, e tudo custa um bocadinho menos e é também fruto do nosso ventre, Jesus.

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por T.

Segunda-feira, 12.08.13

O diabo que o carregue

Rosa Chacel

 

«Y, tal vez ante la inseguridad o preocupación de Marías por su escasa experiencia, que considera un atributo imprescindible para un buen escritor, la autora de Memorias de Leticia Valle le tranquiliza: “Figúrate, allá en el Paleolítico, cuando yo tenía 15, si habré oído hablar de la necesidad de experiencia, tal como la concebían entonces: frecuentación del gran mundo… A los 15 años me asustaba ese fantasma, a los 20 lo mandé al diablo”.»

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Segunda-feira, 12.08.13

Ici, là-bas

[Fotografia de TR]


«Chère Madame T.,


Je vous emmène en mer de Chine pour quelques esquisses philippines. Je vais voir des visages comme toujours, des têtes ifugaos, bontocs ou ilongos. Il y a plus de sept mille îles sur deux mille kilomètres de long. Je ne vous parlerai que de la plus grande, Luzon. Pour le reste il faudra beaucoup de vies.
[...]
Cinq heures du matin, je file sans vous sur le railway track. C’est le plus grand manège du monde, mais ce n’est pas un train fantôme. Au milieu de Manille, il est une vie entre les rails avec des hommes et des femmes, des enfants, des commerces collés entre le grillage de la rue et le souffle du train. Tout cela est filmable avec beaucoup de prudence suivant les quartiers, mais comment vous l’écrire, madame, comment être suffisamment éloquent, suffisamment juste.
Ici il n’est point besoin d’inventer une histoire, de repeindre la réalité.
[...]
Sur de l’herbe brûlée, à même le sol, un père dort avec ses deux jeunes enfants. Ils sont paisibles comme le Dormeur du val mais sans trou rouge au côté droit. Le jour se lève comme un voile tendre et la lumière irise les trois visages. Ce que je filme est beau et cette beauté rend la scène terrible. Un peu plus loin, une femme lave du linge en tentant de réveiller du pied une masse inerte.»

 

[Bernard Giraudeau, Cher amour, Éditions Métailié]

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por T.

Sexta-feira, 09.08.13

That buzz

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por T.

Sexta-feira, 09.08.13

«Be still my heart.»

A cama tem molas que despontaram do colchão, ele embrulha-se, amortalha-se em estágio para as exéquias, e Carminda tem os cílios de penas, as quatro filas deles, colados, remelosos, em remendo fininho, à volta das pupilas dilatadas, aumentando a realidade do cheiro a urina e o detalhe da escara que remata a última vértebra, rente ao elástico da fralda pesada. Ela inspira-expira, num compasso vagaroso, as mãos húmidas, a expelir o medo. Junta-as, às mãos, e despeja uma cantilena antiquíssima, tanto quanto tempo tem de ser gente, que é mais do que a vida deles, mas isso não importava dantes. De cor, Carminda mete para dentro a novena, pára só a engolir a saliva pastosa, que incomoda a rememoração.
Carminda quere-o muito. Qui-lo consigo; roga-lhe: morre, meu amor.

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por T.

Quinta-feira, 08.08.13

Da tristeza destes dias

A gente habitua-se às demissões, à fantochada, aos comícios em sede imprópria, a ver Pedro & Laura em trajes menores no areal. A gente aprende a conviver com o inenarrável cartaz do candidato de nariz reluzente — indício de Pinóquio em gestação na coisa pública , a aguentar Ulrichadas, pobrezinhos de espírito a brincar às elites. Escol, é bom lembrar, nunca esquecer Pessoa, é coisa que não existe verdadeiramente em Portugal.
Mas a gente vai abaixo, a gente cai num esmorecimento doído, quando pergunta à senhora do café qual a razão para o seu súbito chururu, bochechas murchas e olhos baços, e escuta: «Estou triste por ir de férias.» Porque no tempo, não muito distante, das vacas gordas e sorridentes, a casa não fechava, ou, se se punha o papelito com um sol de ClipArt a alertar a clientela sobre o descanso merecido do pessoal, ia-se embora contente, consolado, trabalho feito, dinheiro contado, assunto arrumado.
Como se sobrevive a isto para depois ver se ainda vale a pena? Não sei.

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por T.

Quarta-feira, 07.08.13

Oração para todos os dias

Pessoas miseráveis com tendência para a felicidade cutchi-cutchi, isto é um pedido de auto-ajuda-alheia, mas não para vós, adoráveis nhó-nhós.
Cobiço-vos, sabeis disso?, e mortifico-me. Cobiço a vossa vida de tristeza que se cura com hansaplaste coloridos, a vossa fé inesgotável na novela das nove. Cobiço a alegria com que cantam e riem nos vossos carros, logo de manhã. Oh, como tenho inveja, e até o meu cinismo se abala, quando vos vejo correr para as quintas em Agosto, a alegria em bruto da banda a tocar e das esculturas de cisnes a descongelar.
Salvem-me, lobotomizem-me, o que for. Mas não me deixem continuar a trilhar este caminho de terror.

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Terça-feira, 06.08.13

Banalidades, puf

Coisas tristes às 19h17: o conhecimento do Outro. Coisas mais tristes às 19h18: a certeza da nossa mortalidade. Coisas tristíssimas às 19h20: a vida gasta-se num fósforo e nós andamos a fingir que não sabemos de nada.
Não conheço nada mais perigoso e pernicioso do que a palavra. E, apesar disso, como o anjinho que tramou o Senhor, nada há de mais belo.

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Segunda-feira, 05.08.13

A hora clara

Hora da palavra, quando não se diz nada
Fora da palavra, quando mais dentro aflora
[Ninguém é doido. Ou, então, todos são.]

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por T.

Segunda-feira, 05.08.13

L'amour à la lettre

Alain Robbe-Grillet et son épouse, Catherine, en 1959
(©Catherine Robbe-Grillet/IMEC)

 

1952

«Demnate. Dimanche.

Cette fois-ci, mon chéri, ça n’a plus guère de rapport avec le tourisme, les monuments et les cartes postales : je viens de passer toute la semaine à cheval dans la haute montagne, couchant sous la tente, mangeant le méchoui, le poulet aux raisins et le couscous, avec les notables à l’ombre des noyers, buvant le thé à la menthe et le lait d’amandes dans ces étranges forteresses en terre rouge qui se dressent à plus de deux mille mètres d’altitude sur des éperons rocheux, au-dessus de torrents et de précipices, accueilli triomphalement par des tribus berbères qui ne voient jamais d’européens parce qu’il n’y a pas de piste à moins de six ou sept heures de mulet, fêté partout enfin par des chants, des danses et le strident « you- you » des femmes en grands costumes rouges et oranges, agitant leurs foulards de soie sur les toits des douars. […]
Tu es loin, Katia chérie ; comme tu es loin ! Que savons-nous en réalité l’un de l’autre par ces lettres ? Il est assez vain, peut-être, de croire que nous sommes un peu ensemble (ou de faire semblant) sous prétexte que nous nous racontons quelques menus événements d’une vie quotidienne dont la trame réelle est inévitablement ailleurs. Même auprès de toi, je n’avais que trop souvent l’impression que tu m’échappais, malgré les contacts de toute nature que je savais multiplier. Alors, maintenant, que dirais-je ?
Est-ce à toi que je rêve, ou bien à une image ?... Nous sommes chez nous, un chez-nous confortable et secret... loin du monde... où faire, au gré des heures, la lecture, la dînette, l’amour... J’ai tant envie de revoir ma mie, sans regretter le temps passé...
Et toi tu es à Chartres avec un autre, à Chartres ou ailleurs... et qu’y fais- tu ?

Alain»

[Alain et Catherine Robbe-Grillet, Correspondance 1951-1990, Éditions Fayard]

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por T.

Segunda-feira, 05.08.13

C.S. vai de férias

Era uma vez uma menina que fez uma permanente nos anos 80 e depois ganhou juízo, cresceu. Entretanto, sonhou com um príncipe com nome de apóstolo, apostou tudo, casou. O anjo visitou-a e disse-lhe que era tempo de ser outra, de ser mãe. A menina-mulher agarrou no seu amealhado de sonhos e pô-lo todo, seguro, nessa transformação.
Nasceu João, e faz-se homem a cada segundo. E segue sempre, sempre destemido, porque tudo é falível, mas não a Mãe. Os dois, sós, sapateando – é assim que os imagino sempre em desenhos animados.

Os olhos da Mãe continuam iguais, como na fotografia em que me agarra, as duas sentadas numa manta, no quintal da avó, com papoilas atrás. Digna, substancial, empenhada, hoje chorou. Vai de férias e não leva o seu menino-ai-Jesus. Que é má, má mãe. Eu, toda matriarcal, disse-lhe que recuperasse o juízo, com medo de uma sequela da ondulação.

C.S. vai de férias. Imagino-a ilustrada, a aguarelas, andando de barquinho, o rosto debaixo de uma sombrinha carmim. Mande-me um postal, ma chérie, ma chérie-Maman. E mande saudades à minha cidade cheia de Luz.

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por T.

Sábado, 03.08.13

Liquid Spirit

«I think maybe what I'm doing is what people actually want to hear. There are some people who want that liquid spirit - a soulful, thoughtful sound - and they haven't been getting it.»
Thank you, Mr. Gregory Porter. Thank you.

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por T.

Sábado, 03.08.13

Mundi Allen

Ei-lo, em todo o seu esplendor: Mundi Allen, o autor que não tinha lugar numa livraria portuense do século passado.
Para o Zé João, que é um tipo de classe Mundial.

Não foi só ontem que o tema f(r)acturante assaltou a minha vida de cidadã. Na verdade, há por aí muita boa gente a presentear-me com f(r)acturas, a destruir o meu pequeno amealhado de esperanças pueris, ou, se me permitem a hipercorrecção, da alta-adolescência. Por ora, o meu pior pesadelo é um judeu baixote, metido a engraçado, que degenerou na película, mas permanece invicto na sua versão bibliográfica de 81. Mas quando a coisa nasce torta, lá dizia o Jaquim da taberna (onde eu ia reabastecer a dispensa de minha mãe com tinto para os seus cozinhados), nunca se endireita (e Jaquim rasurava na versão mais populista o «tarde»).

Dizia eu, um judeu baixote. Sim, um sacana d’um rabino que agora me aparece junto à orelha esquerda, em versão mais ou menos animada, quando resolvo ferrar a minha boa dentição numa pêra de Alcobaça, num bolo conventual, numas migas com azeite a rodos. O-que-for. Aparece com as suas lunetas de pseudo-intelectual, enjoado de estar sempre em aparições, e sempre pelo mesmo motivo: estou a ser alarve desculpando-me com Nosso Senhor.

Explico. Cometi um erro colossal quando resgatei do meu quarto liceal um livrinho que herdei da matriarca. Trata-se de «Para acabar de vez com a cultura», de Woody Allen, embora o título original faça mais justiça à maleita de que agora padeço, «Getting Even». Nele, entre outras perturbantes distorções, está um texto no qual, trocando por miúdos (que fomeca, meus ricos), o narrador sobrealimentado nos acena com umas frases proferidas por um tal de tio (só tio mesmo), que rezam mais ou menos assim: «Ele está em toda a parte. Nestes biscoitos, por exemplo». E já estão a ver o que se segue. O magricelas ingere porções divinas a toda a hora e fica cilíndrico. Numa frase, Ele nunca é demais.
Pois bem, eu achei aquilo meio retorcido, mas útil e conciliador. Eu podia adaptar aquilo, com a breca. Mas não. Veio o invejoso do judeu com a história do lobby, que estava a usurpar e onde é que ele já tinha visto aquilo em séculos de História, e ainda encheu a boca com a Quaresma, e depois eu é que meti o pé em seara alheia.

De modos que é assim. Perdi o melhor argumento para atirar ao trombil do próximo espécime que formar uma oração coordenada ou não sobre a minha volumetria. E recomendo eventual conversão.

Post Scriptum (expressão naquela língua-morta que o Papa usou no Twitter, vulgo Esqueci-me Disto): a edição que refiro é uma relíquia, mas encontram a coligação destas e de outras prosas na, justamente, «Prosa Completa» do minorca. Ide em paz.

[Originalmente publicado na Papel, aqui.]

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por T.

Sexta-feira, 02.08.13

A vida, antes

Aos três anos de mundo, a tríade intocável foi profanada e tudo mudou. Dessa mudança recordo apenas o depois, que não é um verdadeiro depois, e isso é, talvez, a coisa mais estranha de toda a minha vida.
O tempo daquele casal, os meus pais, existe só na minha memória inventada, sugada aos outros, criada das lembranças alheias, das fotografias do álbum verde. O tempo da sagrada família, três pessoas debaixo de um tecto só, a primeira árvore de Natal, o início das palavras, «não», «dá», eu feita profeta de fralda anunciando a vinda da salvação, ou, que culpa tenho eu?, se for apenas mito, assim reza a escritura no livro de assentos, 52 cm, muito cabelo, «nunca quis chucha».
A minha vida começa sempre depois, quando vejo a entrada da creche, um edifício cor-de-rosa velho, eu num dois cavalos azul-bebé, a pintura de dois meninos a beijarem-se debaixo de um guarda-chuva, pés numa poça escura, demasiado perfeita, regra e compasso. «É para aqui que tu vens agora.»
Foi para isto que nasci. Nunca um grito, um recado traiçoeiro na mochila de fim-de-semana, uma zanga. Um amor maior, intacto. Um pai e uma mãe separados, uma filha a crescer, para sempre, nos dias de uma vida, nesse reduto, feliz.

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por T.


por Tânia Raposo


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