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Not quite sun, not quite the moon



Terça-feira, 30.07.13

Something serious

I have to tell you something serious
but don't be alarmed.

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por T.

Segunda-feira, 29.07.13

Luz

La Chambre, Balthus, 1954

 

Por detrás da portinhola de rede, Piedade esperava-me, de avental e braços estendidos, lenço com nó à Beatriz Costa. Cobarde e pouco hábil na expressão corporal do sentimento, parei no alpendre durante uns segundos, paradinha de penalti, com um enorme medo de falhar. Depois, agarrei-lhe a cara pálida com as mãos todas, fiz uma escalada até ao cocuruto com as pontas dos dedos e senti picar. Os cabelitos, hirsutos, debaixo da seda, acenderam a imagem da barba fraca do meu avô, antes de ficar retesado e magro como um cancelo na cama de um lar.
O cancro comeu a minha avó, caíram-lhe bocados de carne, roeu-lhe a resiliência até então da vida toda, e eu não quero entrar no quarto escuro outra vez. O cancro comeu o meu avô, que definhou, cheio de uma saudade e de um afecto que esteve cinquenta anos dormente, em silêncio, esperando a morte da mulher de Israel para, então, viver.
Tudo tarda, e nós somos ridículos.

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por T.

Domingo, 28.07.13

Rêvant

Thérèse rêvant, Balthus, 1938

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por T.

Quarta-feira, 24.07.13

Fresco de Fat Mountain

 

[Fotografia de TR]


Coqueluche das décadas que fecharam o século passado, o pouco proeminente Monte Gordo é hoje terreno do qual, a todo e qualquer instante da expedição veranista, brotam flatulentos episódios balneares do nosso absoluto, delicioso deslumbramento provinciano.

Ao longo de uma espécie de marginal, metida entre parques de estacionamento, zonas ligeiramente ajardinadas e barracas que albergam túnicas de rede fluorescente  especialmente indicadas para chamamento de atenção a maridos-todo-o-ano-alheados-do-pneu-da-excelsa-senhora — um terrífico ajuntamento classificado de «divertimentos», espécie protegida desde os fulgurosos tempos da minha infância de má memória, deita para o ar um conjunto heterogéneo de sons musicais, da batida tonyana ao rebumbum de discoteca demodée, parecendo querer competir directamente com as colunas anexadas ao snack-bar ibérico, forrado a bandeirinhas nacionais, onde há o ambicioso projecto gastronómico intitulado «sardinhas todos dias». Do outro lado, o cheiro a fritos, que voa da frigideira da família Napier ou de outra roulotte de churrinhos especiais, atravessa o alcatrão e cola-se à estampa britânica, oxigenada a vários volumes, super-mini-saia florida descaída, fio dental a vincar-lhe a cintura, criando uma segunda vaga de bochechas do rabo inglês. Sim, reconheço-a, a cueca é o elemento que me permite confirmá-lo: era ainda ontem a colega da duna da frente, a despachada mulher que trocava o biquíni pelo conjunto íntimo, rendilhado, debaixo do guarda-sol, não sem antes ter usado o rolo que fez com a toalha turca para se certificar da ausência de grãos de areia no mais recôndito interior das suas encarniçadas coxas.
Mais adiante, dobrando a esquina junto ao decrépito casino, entramos na rua das montras, assim nomeada por uma espécie de instinto de fuga prà frente. Aqui, uma miscelânea de chinesices com finas camadas de mundo árabe ocidentalizado cobre a superfície quase por inteiro, tendo para isso colonizado várias casas de artesanato e recuerdos outrora soberanas. Há espanholitos de bóia com fartura, espalhados em esplanadas de bom plástico amarelo, máquina do tempo sincronizada para o início de 1990. Passo por um enorme letreiro promissor, «depilation now very cheap», e encontro uma boutique singular, quase nua de recheio, onde a promoção são os fatos de banho a rondar os 179 euros.
Regresso à praia. Nunca a minha big idea do depósito de crianças fez tanto sentido. Entre a Ângela Maria de orelha tenríssima e já furada e o sexteto dos Ferreira, de tenda armada, big mamma barrando cacetes com Nutella para empurrar as sandes de salsicha, a geleira que o mái novo do Manel Alves resolveu estacionar em cima do meu metro quadrado de areia e o vendedor de conquilhas que ostenta «fuzileiros para sempre» no antebraço, nem o bebé mais amoroso do Verão 2013 consegue reconduzir-me ao meu centro bondoso, maternal. À beira-mar, dois contribuintes para o futuro da banda gástrica em território nacional trincam bolas, jactantes. Ele preocupa-se em limpar-lhe o beição com a ponta do anelar, e ela, comovida, faz sair o seu músculo poderoso da caverna bocal, pondo-o a girar em torno do dedo do seu amado.
O sol põe-se, e Filipe Samuel, qual anjinho de lago, produz um repuxo de oiro, que morre a meus pés. A progenitora gargalha e, a seu favor, jura que já lhe disse que antes tem de escavar; depois, claro, tapar. Há uma mama de fora na banhista das sete da tarde. E uma traineira «Virjem do Monte» a chegar.

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por T.

Quarta-feira, 17.07.13

Palavra

«— E a tua vitalidade farta-me como um prato demasiado abundante para o meu apetite civilizado; como um desses festins bárbaros, em que corria sangue ao lado das fogueiras em que se assavam bois inteiros. Que queres de mim? Qualquer outra mulher teria mais senso comum e mais verdade.
Qualquer outra mulher não tem nada que ver comigo. Qualquer outra criatura, excepto todas juntas, não tem nada que ver comigo. Devia ofender-me com o que tu dizes, e isso não acontece; devia sentir ciúme quando passas de mão dada com as tuas amigas e as trazes aqui e as mandas embora com um olhar de recompensa e já distraído até pela nódoa de bâton na tua gravata. Mas não tenho ciúme. Não percebo bem, digo-te. O orgulho é a muleta da castidade e há castidade em todo o sentimento, toda a efusão de alma, toda a concessão do nosso eu, assim como pode haver impudor. Tenho um tal orgulho em te querer desprezar! Isto é talvez toda a minha força… Meu Deus, que coisas aprendemos a dizer!

De repente, com o seu espírito iluminado e caloroso dos vinte anos, ela compreendeu essa trágica fraude da criação da palavra, essa perturbadora e frágil forma de ligação entre os homens e que acrescenta para sempre o seu desencontro. Compreendeu que não há diálogos reais, que, quando alguém interfere com a vida e a alma de outrem, com os seus prazeres e pecados, toda a veemência resulta caricata, e a palavra sempre atraiçoa, envilece, abjura; a palavra, tanto mais cultivada e erudita, confunde as intenções mais formais e rigorosas do coração do homem. Um diálogo perfeito e momentâneo resulta uma comunicação de loucos, com esgares sem propósito, saltos mortais e esperas atrás das portas. A palavra corrompe sem culpa, tudo o que explica adultera, a sua harmonia é uma conspiração, o seu brilho fere sem iluminar.»

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por T.

Segunda-feira, 15.07.13

Querido marido

As coisas estavam num baú de cartão bolorento, pejado de ferrugem, no sótão onde eu tinha erguido tendas índias de lençóis, casas portuguesas de mantas mindericas e outras obras-primas da arquitectura infantil de T., a mestre-de-obras de paus de vassouras, arames & estendais, sociedade nada anónima e matriarcal, limitada a primas e vizinhas, cachopos não entram cá.
O chão que me pertencera a vida toda ia para outras mãos, e eu tinha a inglória tarefa de recuperar o que nunca tinha sido meu  mais um capítulo na irónica história mundial da herança.
O ferrolho cedeu com duas ou três pancadas e veio de dentro um cheiro acre a mofo, curtumes, corda e envelopes selados. Comecei a retirar os montinhos de coisas enlaçadas para o chão de cimento, tentando não desfazer a elaborada lógica daquilo tudo, que não fazia sentido, Israel nunca fora homem de guardados, e aquilo era obra dele.
«Querido marido», e eu engoli seis sílabas, enrijeci, era como nas radiografias, a placa gelada encostada às vértebras, não respire, a fotografia a demorar demais. O postal tinha sido muito vincado, dobrado talvez para caber no bolso das calças plissadas do destinatário, embora na minha versão instantânea tivesse vivido anos a fio no bolso da camisa, do lado esquerdo, apontado ao coração. «Querido marido», e desdobrava-se em parcas linhas descrevendo a temperatura da água, o quartito calhado em sorte por meia dúzia de tostões, a menina que dizia pai e o rapazola que desandava areia fora, sem medo do mar.
«Querido marido», e os dois mortos, agora duas sombras evanescentes naqueles cinquenta metros coroados de telha-vã, e os dois vivos como nunca os tinha visto em mais de duas décadas de episódios terrenos, agora o homem que Albertina claramente amara, talvez só até «com saudades, da tua mulher», aquela que Israel conservara religiosamente, como quem olha para uma iluminura de mártir.
Subsistiu jazendo o amor dos meus avós — para viver finalmente em mim.

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por T.

Terça-feira, 09.07.13

A escolha de David

Estou cansada deste melaço noticioso onde andamos enfiados. Estou cansada dos ameaços apocalípticos, de suster a respiração e de levar com águas mornas cara abaixo, que isto não aquece nem arrefece, só os tipos da meteorologia parecem acertar, está tudo do avesso, sinal dos tempos. Enquanto ficamos assim, cacilheiros poptizados e encalhados em cenas pseudo-tudo, eu, pela minha parte, dispenso cada vez menos o vinho, a música e uma resma de papel cozida à linha, do que agora, entre wi-i-bugigangas, nos parece coisa da haute antiquité – um livro.
Entretanto, fui arranjar as unhas, actividade prosaica que não dispenso, e desta vez foi o filho da minha riqueza de coiffeure que escolheu o esmalte semanal. David, com tom de novo testamenteiro, apontou para o frasquinho e disse que o coral não me iria mal. Assim foi, segui o parecer do estudante de medicina que rumou a terras nórdicas, conselheiro estético nas férias grandes, que correu em auxílio de sua mãe, assoberbada no salão com fêmeas várias, uma hospedeira fazendo um alisamento asiático, uma moça que se antecipou ao descair das peles e se foi ao peeling, e outras mais. E David quer saber se gostei do trabalho da rapariguinha que me embelezou as mãos. E David quer que volte sempre, olhando-me com as enormes pupilas envoltas em avelã e chocolate, e eu já o imagino de estetoscópio e bata, educado, igualmente polido, a tratar-me do coração.
Lá vim para a rua amanhar-me com a realidade, mas por trinta minutos a escolha de David salvou-me do bicho papão.

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por T.

Terça-feira, 09.07.13

La bêtise mondialisée

«La liberté de penser sans la liberté de la pensée est une grosse farce contemporaine.
Sans le déploiement de la seconde, la première revient tout bonnement à dire ce qui vient à l'esprit pour mieux se vider la tête. Et, précisément, se vider la tête, c'est laisser le maximum de "temps de cerveau disponible" afin de recueillir toutes les insanités de la bêtise mondialisée.»

[Aqui]

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por T.

Segunda-feira, 08.07.13

Dá-dá-ismo

«E tu, o que queres da vida?»
Veio assim a pergunta, muito pouco a jeito da moderna questão colocada, uma tendência pouco portuguesa, género import/export dos idos 90. Veio clara como o vinho entornado de três garrafas de branco, solta e escorreita como é de bom-tom, uma vez vertido o líquido para dentro do corpo — deixamo-lo sair em resposta.
Como é costume, fiz uma lista, que incluía o velho e proveitoso capitalismo a permitir a boa manutenção logística e luxo-aqui-e-ali da vida estrutural, familiar, e a culpa é sempre, sempre dos pais.
Mas o que, depois, me ficou cá a encanitar, zumba-zumba, foi a contracção da preposição com (lá voltamos outra vez) o artigo definido: da vida.
A gente quer coisas dela e temos esse preguiçoso e pestilento costume de esperar que a vida nos satisfaça os desejos, esfrega-esfrega-genial, sem que na maioria das vezes mexamos o rabo, as pernas e o resto, sobretudo a cabeça, e não conta abanar o capacete.
A vida é uma dádiva, não uma parturiente de dádivas, tipo quermesse, vá lá, deus das rifas, faz com que me saia o funil amarelo. Façamo-nos à vida, que ela não se faz a nós.

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por T.

Segunda-feira, 08.07.13

Realmente viva

 

«Eis que, tremendo, muitas vezes forjamos um Deus que nos substitua nessa tarefa sempre sem precedente que é estar vivo, contribuir com a nossa força, a nossa vontade. Mas, enquanto o homem é toda a linha condutora do passado e só ele, apenas ele, Deus é o tempo anónimo que se converterá em nós.»

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por T.

Sexta-feira, 05.07.13

O homem vestido de branco

Tenho saudades dos dias em que cantava esta música, com gana e voz esganiçada, assim: je vais de morrer. Era no tempo em que me esforçava imenso por perceber como é que o locutor do Bola Branca podia anunciar na telefonia do meu avô Israel que o Benfica ia jogar em casa, pois o Benfica tinha de ter uma casa muito grande, com uma sala enorme na qual coubessem balizas e centenas de pessoas sentadas em cadeiras ao longo do espaço. Foi nessa altura, ou pouco depois, que conheci o padre Abílio, numa visita matinal que fez à escola primária.
O padre Abílio sempre foi velho, pelo menos para mim. Como a minha tia Violeta, que roubava todas as bolas de futebol dos miúdos lá do canto, competindo com Israel, seu irmão, no índice de malvadez e tirania que tinha cada show de expulsão por infracção de regras muito suas, muito deles, naquele pequeno rectângulo que era o bairro familiar onde cresci. O padre Abílio era velho, mas não velhaco, falava com vagar, como se o tempo fosse uma coisa eterna, e quando o vi lembrou-me a canção do homem vestido de branco — finalmente eu também podia agradecer àquele que encantava a Europa e que o Dino Meira louvava sem parar.
Foi depois daquela visita do padre Abílio que eu levei para casa, preenchida com letras desenhadas com esforço pela minha mão, a ficha de inscrição na catequese. O que veio depois não tem história, por lá andei, fugindo muitas vezes à missa dominical, correndo para casa de Albertina Francisca, minha avó e cúmplice de pecado, para me esconder do ralhete e dos olhos da minha mãe. Já adolescente, baptizou-me ele, e acho que foi o último dia de fé, corria um Dezembro chuvoso, o último dos dias em família, antes da supercola  que era a minha avó partir e começarmos todos a partir da vida uns dos outros.
O padre Abílio morreu, e com ele o que restava dessa gaiata também.

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por T.

Segunda-feira, 01.07.13

Mais vale ter graça

Os 2000 quilómetros que vão de minha casa à dele são os mesmos de há duas décadas. Mas a distância que nos separa hoje pode ser medida pela gramagem de doçaria que em sorte me calhou.
Há 20 anos, trazia-me uma tablete de meio quilo de chocolate, latinhas Mont Blanc, barras de cacau mais modestas e vários sacos de caramelos e rebuçados. Este ano calhou-me uma singela embalagem de Carambar. Vinha dentro de um plástico mauzote, claramente padecendo dos efeitos secundários da road trip anual. Atirou-me aquilo para as mãos e perguntou-me pela vida. Eu, interiorizando com esforço a ideia de lotaria semestral — pela cadência dos encontros e pela substância avulsa que detêm , disse-lhe duas ou três verdades universais, não disse nada, e a seguir falámos da chuva e do tempo e de outras coisas absolutamente fundamentais.

A encenação dessas coisas fundamentais, da sua importância, é uma mentira. Mas sem ela, nada do que de verdadeiro resta poderíamos salvar.
Ontem comi meia dúzia deles só para ler as blagues que são impressas no interior de cada invólucro. E ri-me disto tudo.

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por T.


por Tânia Raposo


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