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Not quite sun, not quite the moon



Sábado, 29.06.13

A solução?

Ovaltine, pois então.
[Esta e outras mezinhas, milagreiros em posters e slogans mágicos até 27 de Outubro, aqui. Ah, de graça e com ar condicionado.
Experimentei e estou satisfeita.]

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por T.

Sexta-feira, 28.06.13

To a place beside me


And I was quiet, well I heard your voice in everything.

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por T.

Terça-feira, 25.06.13

A bem da Nação

Ah, os transportes públicos, esse meio essencial na minha vida para chegar ao fim próxima do desmaio por inalação de substâncias altamente tóxicas.
Ainda hoje, pela fresca (manner of speaking pouco apropriada, mas), eu embarcava em mais uma viagem no moderno autocarro da Carris, piso rebaixado e ar condicionado. Experimentei sentar-me nos bancos da frente, o ar quente a entrar renovado a cada tirilim-tim-tim. A senhora sentada ao meu lado tresandava a uma imitação barata de Chanel, próxima do n.º 5 mas em muito pior. A náusea levou-me então aos lugares mais altos, lá atrás, onde um ser de manga à cava e sovaco feito área verde portuguesa de Agosto em chamas, ti-no-ni, exalava um perfume agridoce, com notas ácidas e toques de picante, insistindo em bambolear-se roçando a cintura no meu braço direito. Tento o banco corrido do fundo — não há ninguém a habitar os assentos, pode ser que. Próxima paragem: adolescentes da nova geração, imberbes e chique-favelados (esse estilo urbano que invadiu o bairro social ou o bairro social que invadiu o estilo das avenidas novas, ainda não sei) empunham um telemóvel potente, a julgar pelo volume que me chega do lugar contíguo, curte só esta, iô. Estou quase a desistir, a ambientar-me ao Axe retardado como fragrância social, quando vejo que ao lado da LOL, vulgo little old ladie, tricotadora por sinal, vagou um espacinho. Peço licença ao mano, que me olha de cima a baixo, esta não devia andar aqui, e dirijo-me rapidamente ao fim do corredor. Nisto, sou abalroada por um senhor de sacola, quarentas-cinquentas, que resolve dar-me um chega para lá com a dita, não sem antes apresentar o seu manifesto, fui operado à anca e tenho problemas nos pés. Tem, é um facto, e chama-se a isso chulé.
Eu gostava que, a bem da cultura (não há cabeça que consiga parir uma ideia minúscula com um despertar deste calibre), parassem de brincar às metrópoles civilizadas distribuindo livrinhos no bus e assim, e pusessem a rapaziada a oferecer o Feno de Portugal ao maralhal. Duche matinal é o novo desígnio nacional.

Adenda: O seu nome se chama Estevão Gabriel e fala sabiamente a partir do país irmão. Valeu.

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por T.

Segunda-feira, 24.06.13

Mortalidade

[Fotografia de TR]

A verdade e a fé são coisas unas e universais — não existem. Da mesma forma, o amor passa ao lado da tristeza, quando acreditamos que ele anda por aí, solto, fresco, como as pombinhas da catrina, uma é minha, outra é tua, outra é de quem a apanhar.
A língua portuguesa, tal como não pode ser acordificada, não pode revelar-nos transversais e homogéneos substantivos precedidos por essa bomba-relógio que é o artigo definido. Duas maçãs são duas maçãs, duas pessoas são muitas pessoas, às vezes demasiadas, outras, por razia ou desvio colossal, só duas mesmo.
Crescer é uma maneira de perceber isso, por vias mais esconsas, regressando ao artigo definido da infância  que não é, não é o artigo definido da coisa adulta. Há um dia em que a diversidade, que queremos teimosamente tornar uma numa, se transforma no tal artigo definido sem argumentário de acompanhamento, sem explicação em rodapé. Paramos e percebemos que a nossa verdade não tem qualquer ponte que chegue à verdade do outro. E aceitamos, acabam-se as buscas perpétuas de causa, há claridade, e não é mais um efeito conseguido a partir desta ou daquela sequência de actos.
A triste verdade é que o amor só pode viver pela fé.

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por T.

Terça-feira, 18.06.13

Nidificação

[Fotografia de TR]

Na malinha de rodas, tudo à conta, como me ensinaram os anos de cá e lá, e assim o pau vai e volta e folgam mesmo as costas. A vaidade tomou o necessaire, meti cremes de depois dos 30, máscaras de depois do sol, pinças de antes de mar e sais de dentro da banheira na coisita almofadada, folhinho a rodear o fecho da tampinha. Porque não me fio na virgem e não corro debaixo de trovoadas, enfiei na bolsa  um guarda-chuva e um lenço para fingir de cachecol ou ensaiar Jacqueline Kennedy à borda-d’água. E fui.
Cheguei à terra das seis saias plus one e a coisa estava mui mal parada: céu negro, brisa que só de nome enganava. As gentes lentas no paredão, com as mãos a cara e tudo o que conseguissem enfiado em xailes e casacões, arrastados, rostos tristes. Eu, que tinha trocado a lingerie pelo fato de banho em duas peças, chinela no pé, mergulhei instantaneamente numa agreste depressão. Entrei em raivó-coisó-depressão.
O fenómeno explica-se assim  e não me venham dizer que não sei quantas, as mulheres e os homens rebéubéubéu, pardais ao ninho (ao ninho, ao ninho! bom.) Quando entro em raivó-coisó-depressão arrumo. Coisas, arrumo coisas. Faço esquemas de organização das cenas mais insignificantes que me assistem e tendo a encher sacos de 30 litros com tudo o que me vem à mão — lixo. É por isso que, mais dia, menos dia, tudo em meu redor fica seguro, limpo, estruturado, numa perfeita composição. Mas é por isso que não posso fazer terapia não sei de quê, potes a tilintar e budas com olhos esbugalhados com pauzinhos de incenso a queimar no lugar da pilinha. Eu preciso da raivó-coisó-depressão como de pão prá boca. É de dentro-para-fora- de-fora-para-dentro.
No dia depois daquilo, um sol sem história. Melhor assim.

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por T.

Domingo, 09.06.13

Civilidade

A civilidade é absolutamente bela e atroz na separação. Não falo de birras, amuos, fogo-de-artifício e loiça em cacos pelo chão. Não falo de gritaria de meia-noite, mão na cara em estalo quente, braços empurrando corpos em concursos de ferro. É de duas pessoas derrotadas, porém lúcidas, já quase prontas para a vida, que a vitória não nos faz capazes de nada. Apartam-se dois pedaços de ossos, carne, sangue, as válvulas a pulsar nas veias, cada corpo num sofá. E a crueza, a clareza do quadro vivo, presépio em redenção, é a cena mais triste, a cena belíssima que ninguém pode contar.

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por T.

Sexta-feira, 07.06.13

Começar

A vida pára de continuar. Acontecem, quando crescemos, muitas vidas, que começam com uma cadência tanto maior quanto melhor. Esse melhor, das vidas que nascem, é parido da tristeza, não de uma tristeza que chega feita, mas da que resulta de um entristecimento lento, que tende a cerzir-se com falsos recuos, Penélopes trabalhando arduamente, no meio do pão que a cada dia se põe na mesa, ou do lugar vazio que não ocupa.
É aquilo a que, mais por costume do que com substância, chamamos amor. É o amor em que cremos acreditar, o amor que se palpa na carne, o amor que interrompe o raciocínio lógico que não está na Poïesis, mas que leva nega três, quatro, as vezes que for preciso para que tudo tenha sentido. Decompõe-se o verso, a métrica está errada, a pontuação, tudo, e justifica-se a desfeita, a meada a regressar ao seu estado original — a matemática, os silogismos e a arte da argumentação a nosso lado, firmes.
E só no falhanço dessa ciência do exacto, na lucidez desse entristecimento, paramos de recomeçar. Necessitamos de terra, descasca-se o húmus. E anuncia-se outra vida, pronta a começar.

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por T.

Quinta-feira, 06.06.13

Suffer the little children

Suffer the little children

 

A coisa começou torta, como aqueles incisivos que vêm, em trote gengival, ameaçando furar os beiços das criancinhas. A declaração tem um princípio, falo com propriedade: entrei e o corredor, com portas coloridas (púrpura-fada, amarelo-pirlimpimpim, azul-fastiento), tinha ao fundo uma fonte exotérica que jorrava um esguicho murcho, uma aguinha mole que gritava recalcamento. Sentei-me, rabo enterrado numa poltrona negra com cheiro a estofador forreta, napa a anunciar dali até ao hall que tinha o traseiro nela a dar a dar.
Entro? Obrigada, Doutora, tal e tal. Ah, sim, as manchas (a cada Rorschach dela, eu via desfilar cremes Yves Rocher, depois os bombons). Não, Doutora, estou aqui, sim. Eu? Em nada, estava a ouvi-la. Não há divã? Não, não me importo. Pois, é dos filmes. Vamos passar?

A mudança da cadeirinha para o cadeirão, deve haver aqui um significado oculto, Deus meu, tudo tem de ter significados ocultos, chiça, mas o Vamos Passar? era o mesmo da minha cabeleireira, quando me quer tirar da calha, ela que cortava os cabelos ao Rónaldo, descobri no outro dia, enquanto me metia a tesoura nas farripas do ensaio franjático que experimentou em mim — isto também deve ser parábola para símbolo escondido, Jesus.
Saí e ela agarrou-se-me, beijou-me as faces, afagou-me o bracinho direito, e disse só o meu nome cristão. Espero que isto lhe faça sentido, atirou ela. Far-me-á sentido, e vou já de encontro, pelo sim, pelo não.

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por T.

Terça-feira, 04.06.13

A Morte de E.

O meu frigorífico pifou, finou-se, pum. As manobras do curso doméstico de primeiros socorros de nada me valeram, e a ele, ferrugem de cima a baixo, pingando estalactites, muito menos. Mas isso foi depois.
Entrei na cozinha e havia uma poça em forma de Zorro. De cócoras, sem acreditar que ia perder a guerra, perscrutei a zona circundante e, nada havendo que indicasse a origem do mal, enfiei a mão debaixo do rectângulo outrora branco. Nada para lá dos cinco ou seis centímetros de líquido. Seco, sequinho.
Cena 1, take 2: polegar retido nas baixas profundezas frigoríficas. Vem o braço esquerdo em auxílio e lá se avança, com toda a confiança e o cotão de longa duração, para a batalha. Corta-se a corrente ao bicho. Abre-se a porta.
Nota de campo n.º 1: a zona de refrigeração assimilou as propriedades da que a precede, se virmos a coisa de cima para baixo, i.e., da zona de congelação, e apresenta agora um bloco de gelo titânico, com meio metro de largura e pelo menos um palmo de altura, sem fundo à vista. Não será isto a abalar a minha estóica confiança no desenrascanço.
Saco de uma espátula de madeira, muno-me de um martelo sueco e esculpo pós-modernamente a besta glaciar. Isto durou até ficar com o joelho esquerdo enfiado na gaveta dos legumes, resultando num esmagamento de um tomate-em-rama-esquecido-em-rama-esborrachado, e vi também o vidro em mil pedaços cortado.
Com a fúria dos que vêem a derrota mas se atiram à morte certa, acendi várias velas e pu-las em regime nossa senhora de Fátima rogai por nós na segunda prateleira. O monstro começou a ceder, ping-ping, aquilo lembrava-me os meus passeios nas grutas de Santo António, divaguei e voltei a mim quando me cheirou a borracha queimada.
Soprei uma golfada de ar, qual aniversariante, e apliquei o golpe mais baixo: fui-me a ele com as unhas, puxei, e vim aterrar nos mosaicos, entre alguidares, turcos ensopados e rolos de papel, com o menino nos braços.
Electrolux morreu esta noite, a desoras. O funeral realiza-se amanhã, ao final da tarde. A proprietária não lhe concedeu, em vida, a manutenção que merecia. Deixa mulher desamparada. Eterna saudade.

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por Tânia Raposo


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