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Not quite sun, not quite the moon



Quarta-feira, 29.05.13

Acto de Contricção

Hoje, na margem sul, numa biblioteca quasi-vintage, cheia de rastas, missangas e cabelos crespos, fiquei a pensar nos dois ídolos que perdi. Há coisas  e a minha mãe bem me avisou (mas fui incauta) — que a idade não nos ensina, mas nos obriga a ver. E isso é diferente de aprender.
Há um par ou dois de anos, numa conversa com uma das sexagenárias mais sui generis que conheci (era toda tradição, mas depois isto, aquilo e aquel'outro não seguiam a trave-mestra), escutei a cena popular, com direito a analogia faduncha, dos ídolos de pés de barro. Digo escutei, por que aquilo ficou a modos que a fazer ricochete nas laterais, frontais, traseiras e dianteiras do meu cérebro.
Os ídolos são apetitosos, estrelados e encantados nos posters e nos discos de 78 rotações. Nas cabeças das páginas de um livro. Numa tela com vida a retroprojector. Mas se a gente lhes alcança um braço e se põem a botar faladura. Ou a larachear sobre a nossa concreta vestimenta. Vem o dia F. E não é só aquela treta dos Intelectuais do Paul Johnson, todos maneiristas lá fora, vêm para dentro e arreiam no próximo. Não. O piorzinho, o que acontece no dia F, é que se desfazem da propriedade que os nomeou, desconsubtanciam-se e a gente transforma-se num punhado andante de desilusão.
No final das leituras de hoje, mirando as pessoas verdadeiras, percebi que não há remédio para isso, mas que disso também não tenho precisão. Palavra da salvação. E glória só a nós, senhor.

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por T.

Segunda-feira, 27.05.13

Oito saudades numa lista

1. Acordar com o som do amolador a fiunfinar, correr porta fora destravada e ir trocar livros com o primo-paixoneta lá do canto da rua.
2. Ir ao senhor Daniel da loja comprar 100 gramas de Coqui e trazer, com o troco, uma caneta BIC para oferecer à minha mãe.
3. Apanhar papoilas a caminho do Olho da Mari'Paula e pedir aos santos em rezas muito bem fingidas que façam rebentar a nascente antes de lá chegar.
4. Estar no quintal da minha avó e ouvir «Olh'ó homem da batata doce!» e fugir imediatamente para debaixo do tanque para não ser caçada pelo velhaco do saco.
5. Jogar ao na-Nazaré-ninguém-pode-andar-em-pé com as primas entre as barracas com vista para o sítio de onde quase despencou Dom Fuas Roupinho.
6. Vestir roupa tricotada na Páscoa e pensar que aquilo pica mas estou tão bonita, não vale tirar, tens de aguentar.
7. Sair da aula de ciências com a desculpa da bexiga para beijar, de saia rodada de xadrez, o meu amor rebelde e repetente de 13 anos.
8. Achar que uma garrafa de Vodka e uma cassete com o unplugged dos Nirvana até a fita se gastar me vão salvar de crescer.

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por T.

Sexta-feira, 24.05.13

Papillon

O verão ia quente nos subúrbios parisienses. Eu estava encantada com a estadia, os jardins que o meu pai regava e as baguettes. Era tudo novíssimo.
Tínhamos chegado a terras de Louis e Antoinette num Fiat Uno cinzento, segundo carro da família, que tinha substituído o Renault 5 branco, caracoleta de ralis da aldeia. Éramos quatro passageiros mais um. O condutor nunca tinha ido para lá de Vilar Formoso e ia assistido pela sobrinha co-piloto, teen de mapa e roteiro com parênteses escritos à mão; no banco traseiro, eu, a avó assustada pelos camiões que pareciam ir engolir-nos nas estradas nacionais e a Speed, primeiro amor de quatro patas, o maior, de Humberto, meu pai.
Certa noite, cinco da madrugada. Alarme a tocar. Pai de pijama, sobressaltado, a procurar a farda de segurança, a enfiar as calças ao contrário, esbaforido. Faz os cem metros barreiras da casita do caseiro à casota da portaria, guarda da mansão. Os outros falam, falam, mas para o meu pai é o mesmo que não dizerem nada. Ne parle pas français, rapaziada. Rien.
Divide-se o grupo, indicador em riste para comunicar. Humberto, sozinho, vai formoso e não seguro, mas vai. Ninguém trespassou o muro, o que teria feito o alarme soar? Quando se voltam a reunir, o meu pai vem lá ao longe a dar aos braços, bailarina da primeira hora da manhã, numa elegância que lhe desconhecia. Os jacobinos fazem quá-quá várias vezes. Ele reduz a coisa, só mãozinhas a dar a dar.
Nada. Foi preciso desenhar. Uma borboleta não é bicho fácil de apanhar.

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Quinta-feira, 23.05.13

Raça do cão, ai o raça, pois então

«Eu disse São Bernardo, minha senhora.» Entretanto, a senhora que não estava no céu mas tinha a língua de fora, arfava subindo as escadas e quase babava o soalho de tanto esforço mais cabeçal que físico etc. e tal. Tentei alcançá-la, saltando os degraus, mas foi esforço inglório: ela, auf-auf-obediente, já me trazia um encadernado em papel couché da secção de estimação. E, perante tão enorme e inglório esforço humano, que faço eu ao animal de espécie rara? Pio como uma coruja solitária: «Graciliano Ramos, minha senhora». «Ah, esse deve estar esgotado, que não o vi lá nem conheço a espécie.» Oi?, diria o nativo do país irmão. Eu nem um balbúcio onomatopeico consegui produzir. Piu.

Ledores, eu sei que guardaram em vossos corações a sugestão para Cláudia (deixem-me sonhar), que integrava a lista menos de duzentas qu’é um instantinho, pois, essa, esta, e peço perdão por a trazer de novo à colação (sinónimo de pitança, segundo Monsieur Le Word, o que agora até vem a calhar, derivado da idade da descrita mais acima, como diriam os jovens à deriva), mas não tenho outro remédio, que se não faço share já aqui rebentasse-me a alma.

Isto das livrarias está pela hora da morte. E, quando digo morte, digo mesmo ao segundo, ponteiros alinhados e cronómetro a arrancar mal começamos a pedir ajuda para encontrar o mais singelo título. Em verdade vos digo que ainda há  em escasso número, mas há  casas com livros e pessoas dentro dessas casas que conhecem os ditos, os livros, melhor do que sabem debitar as vantagens do cartão com pontos e descontos e saldos aos molhos, edições há muitas, seus palermas. O inverso do reverso, porém, não obstante e outros sinónimos para parafrasear e ensaiar paráfrases redundantes, também c’est vraie, mes amies cibernetiques. Digo, agora escrevendo efectivamente e efectivamente escrevendo a seguir a esta vírgula, os leitores que não sois vós, ledores, que irrompem pelas livrarias a pedir Os Maias para conhecer outros povos como os Incas que a Stephanie e As Sombras foi muito romance e agora querem ir às origens antigas e donde vem a gente e quem eram aqueles tipos antes de nós na História do Mundo afinal.

Ah, que desgraceira, apre, c’um escamartilhão (nenhuma sugestão ortográfica, pois, obrigadinha, Microsoft) e outros delírios lexicais que remanescem do Camilo. Olhem, eu era mais feliz quando tinha 13 anos e escolhia livros pelos títulos e não tinha coragem para o dirija-se ao balcão, por favor. Foi assim que passei a minha fase Rui Nunes (de gritos) e comprei o Muito, Meu Amor fluorescente no Continente de Leiria, que tanto jeitinho me fez para escrever frases lapidares que ainda permanecem na caixa laranja do meu dicionário Latim-Português (Deus me guarde de efabular em redor e indo a fundo do que poderia ter sido intentar uma investida à menina da secção mais próxima para me elucidar  pijamas, soutiens Dim e flanelas dos anos do Grunge numa grande superfície perto de si).

Era, era mais feliz. E isso ainda era o tempo das bibliotecas e da papelaria onde o senhor Germano sabia de cor os títulos do Cardoso Pires e do outro, o dos Cús. Agora, agora é um vê se te avias, se te avias sozinha e não me chateias, de Janeiro a Janeiro, o preço é sempre baixo e a gente está cá o ano inteiro, trim-tim-tim, chega para lá.

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Quarta-feira, 22.05.13

How close am I to losing you


Entristecer é um caruncho silencioso, lento, oco.

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Quarta-feira, 22.05.13

O tal postal


O meu pai deu-me um postal grande com ursos e balões que repetia ad æternum, assim estivesse aberto, os pindéricos parabéns. Andei com aquilo atrelado a mim nas semanas que se seguiram ao meu sexto aniversário, mas foi só adopção temporária. Enfiei-o na gaveta da escrivaninha e devo tê-lo substituído pela piscina insuflável da Barbie que a minha avó me mandou de Caracas, pensando que era o que eu queria, mais os maninhos da loira que nunca Kenificou, e isso sim, era o que eu queria ter, uma boneca linda e prenha, o que eu pensei sobre aquela impossibilidade, meu Deus.
Enfiei-o na escrivaninha e fui brincar às crianças viajadas para Paris. A minha mãe, miserável sem a sua riquezinha, resolveu que a matança das saudades se fazia pernoitando nos meus aposentos, agarrada à minha almofada impregnada de Johnson no llores más.
E começou o terror. Toda a santa noite, no silêncio sepulcral da casa, soava em gravissimo ou larghissimo a marcha aniversarial. Penou um mês, a alma. Se era assombração criada por morte em dia de nascimento, se era um prenúncio de desgraça. Vasculhou tudo, rezas, nosso senhor.
Até que a pilha se gastou.

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Terça-feira, 21.05.13

Posta restante

Quando não se aguenta  no momento não aguento for real do não aguento mais  diz-se a coisa e aí sim, aguenta-se. Aí, meus amigos, é que se aguenta mesmo. Quem joga só no antes disso pode enfiar a viola na caixa e ir cantar sem ela para a freguesia do nosso senhor dai-me paciência.
Vinha a pensar nestas coisas muito profundas e fundadas quando a minha porteira resolveu escandalizar junto às caixas de correio. Ela era toda grandes golfadas, bruços, campeã de mais-de-dez-toques-no-ombro-alheio-enquanto-fala, sericotalho, bacalhau, azeite e alho, amanhã é dia de trabalho. Ah, o escândalo proletário ao lusco-fusco. Ladrões, e a menina, que até tem um posto, não é que seja ladrona, mas tem um posto.
E eu na cena do aguenta, que não aguentas, e agora tens de aguentar. Toma lá que já almoçastes, topastes?  ela não disse, mas pensou, e eu também.

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Segunda-feira, 20.05.13

Carla, minha irmã-Carla

Ontem foi domingo e as vésperas soaram só à 01h00, que é a hora do lobo, embora todas sejam, se o nosso coração. Miss Kitty enfiou-se debaixo do edredão cor-de-rosa velho e os meus pés gelaram. No beliche, andar de baixo, sem inquilino superior, abri páginas muito azuis e a circulação começou a atalhar devagarinho.
Com as unhas a marcar a capa dura, agarrada à Bolota e ao Malik, os olhos faroleiros a procurar a história em dois tempos (azul celeste, azul anoitecido), encaixotei a minha bagagem com a daquela família, mudei de endereço com eles, tive vontade de abraçar Blanche para lhe dizer, sem falar, que era aquilo que importava, os membros superiores à volta do corpo, o corpo dela, de Alce Negro antes de gelar, da prole trilógica, onde Bolota ficou para trás. Será?
De carro, por entre fogo, curvas e lembranças entrecortadas da minha infância, fui a lugares onde já tinha ido, sem sequer me aperceber. Chorei copiosamente, houve soluços que ficam a dever tudo à condução da narradora e do seu progenitor, e tive a claríssima percepção daquela noite, que se alumiou.
A Carla tem um dom, cheio de nós e frestas, tem um dom. Irmão Lobo não é um livro para crianças, jovens de idade menor nem categoria nenhuma. Irmão Lobo é um livro para nós, maior e imensurável quando a pessoa é singular, reflexo da viagem das vísceras arteriais que ligam sempre, sempre ao coração.

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Domingo, 19.05.13

Golo-e-fica

Ser do Benfica é uma condição genética, cardíaca e crónica. Nasce com a gente, e comigo também nasceu.
O meu tio Quim, leão dos sete costados, tentou que o botão verde ligasse durante os meus vários estágios Piaget. Sem sucesso. O meu tio Quim, sportinguista ferrenho, subornou várias vezes o meu irmão mais velho com um gelado-dos-cabeça (uma edição infeliz da Olá, anos 90, que tinha o rei só-da-selva como emblema). Sem sucesso. O meu tio Quim, Alvaláxio até à quinta casa, iludiu a sua filha mais nova, com uma paciência aristocrática, até aos sete anos da cachopa. Sem sucesso.
O meu tio-avô das águias, que eu só via de ano a ano, viveu sempre com os tostões contados para tudo, menos para engalanar a frente de casa com bandeiras, galhardetes e outros símbolos encarnados que faziam parar o trânsito e traziam gente das aldeias próximas (e não só) para contemplar aquela riqueza.
A minha colega de faculdade D., absolutamente alheada das lides futebolísticas, umas vezes espantava-se, outras alarmava-se, quando me ouvia falar das glórias do maior clube do mundo com mais entusiasmo, sabedoria e devoção do que eu alguma vez emprestei às nossas discussões literárias.
Briguei com o meu pai quando não me quis fazer sócia. Infiltrei-me no velhinho estádio para assistir a um treino à porta fechada no dia do meu 21.º aniversário. Colei-me a um volumoso senhor para conseguir sair com uma cadeira n.º1 do velhinho terceiro anel e galguei umas escadas a fugir à polícia, quando sabia que ali não voltaria mais. Vesti a camisola mil vezes. Assisti a jogos com os velhos dos cativos. Ensinei aos meus dois irmãos o hino, um a cantá-lo com 7, outro pequenino ao meu colo a ver os jogos, tentando repetir o nome dos jogadores.
Sou do Golo-e-fica, como disse ao meu tio Quim com dois e três e mais anos. Com orgulho, muito orgulho, mesmo se perder. Não se é do Benfica por querer, mas é-se até morrer.

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por T.

Domingo, 19.05.13

O cabo do consolo

A discussão era a propósito das desgraças televisivas e da salvação pelo cabo. Duas coisas incomodavam uma das palradoras, capacete lacado com madeixas brancas nos rolinhos doirados, saia com folho encarnado: a escassez de reposições nos canais generalistas e a rapidez de passagem das legendas em toda e qualquer coisa filmada no estrangeiro e falada em língua desconhecida. A outra, menos fluente em reclamês e mais acenadora de cabeça, hum, hum, estava claramente a apreciar a masterclass oferecida no passeio largo a quem quisesse parar para escutar.
A número um explicou-se muito explicada, a solução é simples; aliás, é um par delas, de soluções. A primeira consiste em começar a ler as legendas pelo fim. Não sendo ideal, resolve a apanha da ideia, que estamos na época dela. A segunda, mais dispendiosa, implica assinar o cabo, esperar que os rapazes do dito venham instalar-se durante uma hora ou mais, se tiveres sorte, e os meus eram jeitosinhos, no nosso lar, e a seguir já podes ver o Hermando Saraiva, morreu, coitado, mas a obra que deixou, viras para a RTP Memória, agora não m'alembro do número, isso é que me consola, e o que eu gosto daquilo, Cândida.

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por T.

Sábado, 18.05.13

What they think is right - compared to what

Nobody gives us rhyme or reason
Have one doubt they call it treason
We're chicken feathers
All without one nut goddamn it
Tryin' to make it real compared to what

No meio do marasmo, vamos indo. E porque não andamos por cá sozinhos, são devidos agradecimentos à enxuta CF, à elegante Carla Hilário Quevedo, ao cavalheiresco Pedro Correia e ao não menos galante Pedro Rolo Duarte pelas referências ao mui nosso Not quite sun, not quite the moon. Obrigada.

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Sexta-feira, 17.05.13

O barulho das luzes

Homens iluminados, estilo século XVIII exacerbado, ao avistá-los, é logo de fugir. São como aqueles crepes com Nutella e banana que eu comia, com culpa disfarçada de prazer, e depois via alojados nas minhas ancas na semana seguinte, com disfarçado desdém: olhamos para eles, pensamos muito, pensamos muito outra vez, devoramo-los e depois - em verdade vos digo - a boca aguou o cérebro, sem razão.

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Quinta-feira, 16.05.13

Direitos e trabalho

[Fotografia de TR]

Esta imagem é programática. Tirada num ano que a memória e uma taça e meia de tinto agora não me deixam precisar, esta fotografia é isso mesmo, um programa de vida.
Quem inventou a falácia do fecho para balanço não deve nunca ter crescido realmente. Nomeadamente a minha terapeuta, or should I say ex-therapist, que despachei a custo assim:
− Conhece o Gainsbourg?, perguntei eu.
− Quem?
− Je suis venu vous dire que je m'en vais.
− Isso é francês? Diga lá.
− Lá fora, que me vou embora.
Passa factura, atende bem e dispensa trabalho, por mais paradoxal que isso possa parecer. Eu não.

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Quarta-feira, 15.05.13

Preia-mar

[Fotografia de TR]

Quando tinha oito anos, o mar da Praia do Norte era assim. Na areia, entre as formas de caranguejos, os baldes amarelos, uma pá e um ancinho (com o qual eu desenhava ondinhas, arando os grãos molhados), estava eu, de fato de banho meio deslaçado, herdado de uma prima que me dispensara o elastano cheio de peixes encarnados, listados de azul.
Nesse tempo, como tantas vezes nos evangelhos segundo um apóstolo à escolha do freguês, o povo não tinha descoberto quão cool era o surf e os likes não cresciam como cogumelos anunciando a boa-nova da onda gigante e do messias estrangeiro nela montado. Nesse tempo, dizia eu, havia um sossego medonho naquele areal onde o meu pai me agarrava pelos sovacos para me fazer pedalar na espuma, pés tica-tica de quando em vez no ar, mesmo à beirinha, entre dois dos muitos remoinhos daquele mar.
Para lá chegar, andava a pé um bom bocado, entre azedas e campainhas, ele ao meu lado de saco à tiracolo e Ray-Ban toujours. No fim, escolhíamos sempre o melhor declive para descer, aterrando muitas vezes de rabo dorido e empoeirado numa duna do rés-do-chão.
Tenho saudades daquele mar. E do pai dos meus oito anos, que nunca mais vou encontrar.

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Quarta-feira, 15.05.13

Banhista

Isto tinha muito mais graça se eu conseguisse andar em linha recta, dentro de um carreirinho de duas paralelas, ele sempre a abrir caminho, a acenar-me, confiante, e eu a ameaçar saltar borda fora para o meio do grande maranhão.
Isto - eu, os dias e o resto.
Que falta me faz um banhista em terra firme.

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Terça-feira, 14.05.13

Desamar

[Fotografia de TR]


É raro, muito raro uma mulher desapaixonar-se, e esse processo é pragmático na raiz, é um exercício de matemática, auto-inflige-se. Desamar, desamar é outra coisa.
Tentativa-erro-tentativa, nunca vai acabar o amor. Estamos a viver nele e um dia acordamos despejadas. Mas ainda estamos lá dentro. A merda é essa. Não pertencemos áquele lugar, embora ele nos pertença, e depois o que se faz. Não queremos consolo, não queremos bater com a porta, mas ficamos trancadas, com o luto feito e uma tristeza que só se conhece quando vem o vómito e a náusea e o descanso, tudo ao contrário e em câmara lenta, para não haver escapatória.
Fica-se à espera de terapia regressiva, de sinais exteriores, superiores, evocações e nada. Tudo calmo, extraordinaria, aborrecida e inexplicavelmente calmo. Olha-se para ele, sentado, à espera de uma cena, faz-se força, é agora, tens de berrar, gesticular, enxovalhar, senão isto não se justifica, é inadmissível. Leva-se à cena, sai-se com ranho no nariz e a clássica maquilhagem retocada cara abaixo e quase se acredita que será tudo possível outra vez.

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Segunda-feira, 13.05.13

A peruca salva-vidas

A minha querida tia-avó, a minha adorada P., tem cancro. Hoje, com uma mama a menos, na véspera do começo da quimioterapia, fui com ela ver perucas, porque o maior abismo de todos, o que lhe tranca a garganta e destrava o canal lacrimal, é a queda do cabelo.
Sim, o cabelinho. Mais mama menos mama, que a gente habitua-se, arranja outra, feita de carne ou de outro material, mas o cabelo. É ela que mo diz, não sou eu a falar de cor. Que os tratamentos e o resto, venha lá o que vier, anda-se para a frente, risca-se mais um dia, o fim à vista, seja lá que fim for. O dos tratamentos, o da vida, vemo-lo sempre, embora andemos todos a brincar à perenidade, embalando os mortos à distância e fingindo que é tudo com os outros. É sempre connosco.
Antes de entrar, eu lutava com a minha franja, mirando-me num espelhinho de bolso, protestando e injuriando o meu secador e a escova e a coitada da cabeleireira que ma cortou.
E a peruca ficou-lhe tão bem.

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por T.

Domingo, 12.05.13

Outra Vida, esta

So alive at dusk, but daylight came too soon
[Fotografia de TR]

Regressar à blogosfera é regressar a uma parte da minha vida que tem estado, nos últimos dois anos, dormente. É recuperar o fingimento, essa arte absolutamente vital, às vezes pérfida, outras naïf, quase sempre fabricada, da escrita. É também voltar a potenciar o maior defeito de fabrico que tenho, sem conserto ou desesperança vã, a partilha.
O nome deste blogue foi roubado à belíssima Dusk Baby, de Gerald Clayton, que me salva às vezes, como só a música é capaz. A felicidade não existe, mas as pessoas tristes não sabem disso.

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por T.


por Tânia Raposo


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