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Not quite sun, not quite the moon



Terça-feira, 05.11.13

1 X 2

 

Deste-me um hospital com linóleo verde e capela com talha doirada para nascer. Nevou dias depois, como aviso da improbabilidade de que és sempre capaz. No meu cavalo de crina encarnada, via a aldeia onde registaram a menina, balançando-me enquanto os foguetes de São João juntavam cetim rosa, lantejoulas e frango assado nas mesas de madeira, atrás da grade da rua, grande salão de dança solene e aperto de peito, forrado a cartazes da CDU, o avô vota sempre no PC, outros do Soares fixe a quem pintavam as bochechas. Na minha bicicleta amarela, vim da Vera com troco de cinco escudos e uma garrafa de vidro verde no cestinho; pedalei da fonte seca, azulejos com pergaminhos, até ao Daniel para comprar latas de Coqui. Deixei por pagar uma BIC laranja que mandei embrulhar para a mãe na Dona Rosa, e até hoje ninguém a veio cobrar. Deste-me uma mata que se transformava em rio com barcos a remos, entre os ramos das mais altas árvores. Um Renault branco suado nos curtumes pelo pai, viagens em autocarros laranja com a mãe. O Chico barbeiro que furou todas as orelhas das raparigas da família, rapou a cabeça ao caçula, me beijava a testa e fazia os mais pomposos montinhos de algodão. A laranjeira minada de formigas para trepar no pátio da escola, totoloto e totobola, a sorte não se mede nem acaba aqui.
Quanto mais resmungo contigo, Portugal, mais gosto de ti.

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por T.



por Tânia Raposo


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