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Not quite sun, not quite the moon



Sábado, 02.11.13

Vida

Voam, fugindo da tempestade.

[Fotografia de TR]

 

No início da semana, ao telefone com C., franzi o sobrolho e ri-me, quando do outro lado da linha a minha amiga me disse que esta era a semana mais não-sei-bem-o-quê do ano, astros, estrelas, cosmos com carinhas em cartas, sóis, um rol de coisas alinhadas pelo divino para tudo acontecer, decisivamente.
À hora a que escrevo, C. deve estar a sorrir e eu, versão tonta de mim, faço o mesmo, e não me lembro de uma altura em que o tenha feito com tanto choro pueril.
A alegria pura e pacífica da aceitação antes da partida, quando tudo conflui e se transfigura, o espírito em minimal perante a chegada de três quilos e trezentos gramas de vida, as memórias todas ganham nova construção, nada do que foi é o que lembramos, na verdade, nunca é, e que bom sermos assim.
À hora a que escrevi o texto que reproduzo abaixo, estava a semana por acontecer. E esse é o melhor de todos os momentos, se rememorado.

∞ 

Se ainda por cá andasse, Israel comemoraria hoje mais uma primavera. A morte não transformou o meu avô num santo, apesar de ser essa a vincada e cor-de-rosa tradição — morreu, ascendeu, bota auréola. Não, Israel tinha mau feitio, acordou tarde para a mulher que o acompanhou, lhe deu os filhos, e era a argamassa que unia o homem, os netos, todos, enfim, naquilo a que amiúde e levianamente se nomeia Família. Israel foi meu avô, com tudo o que de mau e bom tinha para dar (tortas Dancake, beijos peganhentos, potes de moedas para me ensinar os números, um chuveiro na ponta da mangueira que enchia a piscina improvisada no quintal, as botas como novas outra vez, azeitonas pisadas, viuvez amorosa e flores na pedra da avó). Israel será meu avô será sempre assim.

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por T.



por Tânia Raposo


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