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Not quite sun, not quite the moon



Sábado, 03.08.13

Mundi Allen

Ei-lo, em todo o seu esplendor: Mundi Allen, o autor que não tinha lugar numa livraria portuense do século passado.
Para o Zé João, que é um tipo de classe Mundial.

Não foi só ontem que o tema f(r)acturante assaltou a minha vida de cidadã. Na verdade, há por aí muita boa gente a presentear-me com f(r)acturas, a destruir o meu pequeno amealhado de esperanças pueris, ou, se me permitem a hipercorrecção, da alta-adolescência. Por ora, o meu pior pesadelo é um judeu baixote, metido a engraçado, que degenerou na película, mas permanece invicto na sua versão bibliográfica de 81. Mas quando a coisa nasce torta, lá dizia o Jaquim da taberna (onde eu ia reabastecer a dispensa de minha mãe com tinto para os seus cozinhados), nunca se endireita (e Jaquim rasurava na versão mais populista o «tarde»).

Dizia eu, um judeu baixote. Sim, um sacana d’um rabino que agora me aparece junto à orelha esquerda, em versão mais ou menos animada, quando resolvo ferrar a minha boa dentição numa pêra de Alcobaça, num bolo conventual, numas migas com azeite a rodos. O-que-for. Aparece com as suas lunetas de pseudo-intelectual, enjoado de estar sempre em aparições, e sempre pelo mesmo motivo: estou a ser alarve desculpando-me com Nosso Senhor.

Explico. Cometi um erro colossal quando resgatei do meu quarto liceal um livrinho que herdei da matriarca. Trata-se de «Para acabar de vez com a cultura», de Woody Allen, embora o título original faça mais justiça à maleita de que agora padeço, «Getting Even». Nele, entre outras perturbantes distorções, está um texto no qual, trocando por miúdos (que fomeca, meus ricos), o narrador sobrealimentado nos acena com umas frases proferidas por um tal de tio (só tio mesmo), que rezam mais ou menos assim: «Ele está em toda a parte. Nestes biscoitos, por exemplo». E já estão a ver o que se segue. O magricelas ingere porções divinas a toda a hora e fica cilíndrico. Numa frase, Ele nunca é demais.
Pois bem, eu achei aquilo meio retorcido, mas útil e conciliador. Eu podia adaptar aquilo, com a breca. Mas não. Veio o invejoso do judeu com a história do lobby, que estava a usurpar e onde é que ele já tinha visto aquilo em séculos de História, e ainda encheu a boca com a Quaresma, e depois eu é que meti o pé em seara alheia.

De modos que é assim. Perdi o melhor argumento para atirar ao trombil do próximo espécime que formar uma oração coordenada ou não sobre a minha volumetria. E recomendo eventual conversão.

Post Scriptum (expressão naquela língua-morta que o Papa usou no Twitter, vulgo Esqueci-me Disto): a edição que refiro é uma relíquia, mas encontram a coligação destas e de outras prosas na, justamente, «Prosa Completa» do minorca. Ide em paz.

[Originalmente publicado na Papel, aqui.]

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por T.



por Tânia Raposo


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